Chegava como quem interrompe com educação, vinha se convidando desde a curva do lago, abaixo da palafita. Se fazia necessário. Aumentava um pouco a velocidade para alcançar o rosto de Heitor. Na saudade do reencontro, um assobio de memória, fino e pequeno. No colo, um livro. Mais uma vez estão os dois ali, de encontro marcado. Um toque e a tensão se vai. O cheiro do papel, a textura do relevo da capa. Uma busca pelo motivo de estar sentado na varanda olhando a disputa dos pássaros por território aéreo. – Eles parecem dançar, mas é a mais linda disputa da natureza. Desistiu de trazer as criaturas para perto, desistiu de abrir o livro, desistiu de… não se lembrava do que desistira. Mas sabia que a liberdade, assim como a dos pássaros, era preciso ser conquistada. A prisão de quem queria voar e não podia romper, assim como os samurais, o próprio véu da desonra. – Eu não sou homem de ficar sentado com cobertinha no colo, lendo e mais nada… “Do Alto do Desejo”. Na capa, um nome conhecido: Heitor Liberdade. Um sobrenome irônico. Fatal para um convalescente egocêntrico. Se lembrou de tudo que desejava, se lembrou de todas as suas certezas. Estava escrito ali naquelas páginas. O menino reencontrou-se com o homem. Todos os dias esquecia, todos os dias era o primeiro. Que presente poder experimentar outra vez, a eterna novidade do canto do pássaro, da brisa do lago. Lá, no fundo, o homem surrado despiu-se do Orfeu, que nunca olhava para trás. Encontrou o vento de Zéfiro, que trazia a novidade de ter que buscar-se novamente. Nunca foi tarde. Fechou o livro e despiu-se. Em pé, nu, sentiu o vento onde não costumava. Permitiu que todas as perdas atravessarem seu corpo desprotegido. Sentiu a vitória do tempo sobre a carcaça. Tornou-se imortal em outros. E ali, sozinho, com a coragem para sentir o medo, voou. Do outro lado do lago, os mesmos pássaros saíam em revoada ao ouvir o grito primal. Sentiu a raiva queimar, viu de longe a paz inevitável. Como poeira, foi levado. A liberdade nunca foi o voo, sentir-se livre era assumir-se pássaro.
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ZEFIRO. 19.01.2020
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