018
018. 306. 18.01.2020 018

Jonas ainda não sabia o que fazer da vida. Todo jovem tem disso, vai se procurando e se encontrando no outro, vai se perdendo e se achando. Nesses encontros, um amigo o indicou para uma vaga como salva-vidas.  – Meu amigo, Jon Jon é gente boa, gosta de ajudar as pessoas.  – Mas ele tem experiência? – Tem não, mas ele sempre sabe como ajudar.  – Traz ele aqui, isso aqui vai lotar no calor.  O rapaz até gostava da cadeira alta, do binóculo, de vigiar as meninas bonitas daquele verão, mas a única coisa que o incomodava era um garotinho com cara amarrada no último guarda-sol.  – E você não vai entrar, garoto? – Na piscina? Olha pra mim.  – Eu estou olhando.  O papo foi interrompido pela moça que empurraria o garoto branco branco até a saída da área de banho.   – Seu piscineiro, não tenho vontade de nadar. Se eu fosse pedir por um milagre, pediria para voar. Igual nos filmes.  Na manhã seguinte, Jonas arrumava uma caixa transparente, com algum cacareco dentro, quando avistou o menino.  – Bom dia, garoto. Pronto para voar. Jonas sorriu brevemente e puxou a engrenagem em que o garoto se movia das mãos da moça, que paralisou assustada. Um gritinho de pavor saiu tímido dos lábios da babá ao ver o fundo da piscina. O menino se deixou afundar paralisado. Os braços abertos. Descia lentamente, um astronauta sem gravidade.  Um segundo eterno. Foi retirado pelo mesmo salva-vidas afogador de crianças. Jonas, enfim, pareceu ter se encontrado. Filiou-se a uma organização que operava milagres em prol da natureza. Parece que ela precisava. O menino, infelizmente, não passou de mais dois verões… mas a babá, que virou mãe, olhava para aquela fotografia tirada debaixo d’água. O menino, com as perninhas esticadas, se afundando. Parecia que voava, emancipado da máquina de girar e levar. A força da imagem, onde um menino, que, ao invés de nadar, voava. Viva o poder da água, foi a primeira coisa que Jonas disse ao chegar na praia que sozinha se limpava.