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020. A CIDADE INVENTADA PT1. 20.01.2020 020

A história dessa família começa como a de muitas outras brasileiras. Um povo corajoso, desbravador. Com a força da terra e da vontade, constroem fortificações de pilares sólidos. E que por vezes, podem apresentar pequenas falhas, ranhuras que denunciam a luta pela sobrevivência, a luta de manter-se unidos.    O militar Belchior Martim recebeu a notícia de que o plano para a reconstrução da nova capital fora aprovado. Reuniu seus homens e iniciou a ocupação da região conhecida como Curral Del Rey. Em quatro anos o novo império das Gerais estaria erguido. A nova Cidade de Minas.    – Você, prepare meu cavalo e avise os outros tenentes, partiremos antes do galo cantar.    Capitão Martim e seus homens chegaram feito a foice afiada do progresso. Derrubaram os casebres, tomaram as posses e atearam fogo em tudo o que fosse possível ser consumido para apagar a história daquele lugar. O futuro chamava com a urgência da República Nova. Uma nova história abriria espaço em largas avenidas.   Maria do Có, conhecida na região por seus temperos, era mulher da lida. Três maridos já haviam tirado dela boa parte da beleza, mas alguma coisa em seus olhos ainda encantavam. A idade ninguém perguntava. Nova não era, nem velha. Os que a chamavam de mãe eram tantos em número e se confundiam com a mata e as cabanas de palha. O Curral Del Rey tinha um coração feminino, de bom tempero.    – Recolhe os menino tudo, fecha essa porta menina. Tudo posso naquele que me fortalece…   Com a chegada dos homens de Martim, a casa de Dona Có foi invadida pelos filhos em fuga. Ao abrir a porta, a dança do vermelho cegava os olhos, o calor salpicava-lhe os cílios. Gritos vinham de toda parte. Maria, assim como sua casa, sendo a última a ser derrubada, resistiu. O encontro com aquele homem foi inevitável. O esperneio dos miseráveis chamou atenção do capitão que já batia em retirada, o cavalo assustado negou-lhe aparição gloriosa. Derrubou o homem da lei aos pés de Maria do Có. O sangue tingiu a fronte da prole, apagou o fogo e ergueu bandeira. O facão em riste, tremia, como a terra rachada ao meio, nas mãos da mulher de olhos arregalados.    Com as mãos ensanguentadas de Maria do Có, a história lutava para preservar memória. Belchior com os lábios na terra, fitava a defensora do mato. Pelos olhos do Capitão o avanço sentia o gosto da luta por território.    A mulher, vendo os homens fugirem, acudiu o mandante. Deu-lhe abrigo.    Continua.