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337. VITRAL. 02.12.2020 337

Até chegou a fechar os olhos para sentir o vento frio, misturado com o vapor que subia. O cheiro da terra molhada era o mesmo de quando podia correr e se misturar na vegetação, até sumir. Conseguiu desaparecer, por longos 30 anos, mas sempre haverá chuva para lembrar, ainda que seque o chão. A cicatriz na barriga onde quer que fosse; casou-se em sua presença. A marca viajou por terras inéditas, estampou álbuns de viagem em família. A foto dentro da foto. Quantas camadas de dor uma tinta é capaz de colorir? Ninguém saberia responder, posto que apenas uma pessoa poderia mencionar o fato antes do talho. Agora, não há mais ninguém que ouça. Todos viraram gotas de nada. Na imagem só há fatos. Um álbum inteiro feito de líquido, como a chuva que derrama tudo mais uma vez com a violência de quem cobra. Acomodou o punhal dourado embaixo do tecido. Arrastou a cadeira com rodas duras para longe da luz. Qualquer um fica assim, pensativo, sob o reflexo de uma grande moldura. Janelas separam. O rubro, lentamente, engolia o metal. A sala continuou vazia, enorme e vazia, como nos últimos anos.