O desejo é uma pasta anexada aos arquivos de um tempo no futuro. Para abrir, é preciso mudar. Seguir a direção do vento, pegar a corrente mais forte para ganhar sustentação e fôlego. Se for algo pessoal, é preciso alterar as células, abrir os núcleos, modificar a patente biológica da natureza. É sacrifício. Ele desejou, uma criança faz isso: quer, não combina os naipes, não arma jogadas. Os órfãos conseguem ampliar a força da vontade. A relação íntima com o fim do visível os torna superiores, indeléveis. Respeite o órfão, os capangas diziam no início da partida. Respeite e não faça perguntas das quais você já entrou com a resposta. O pai morto na porta de casa, a frigideira esperando seca no fogão. O grito que subiu o morro. Ela vestia quase nada. A morte pode pegar você pelada, em cima de alguém ou só de camisola. Calor da porra, um, fala para o outro, com a mão no saco. – Quero ele. Cadê ele, Fuzil? – E com esse aqui, quer nada não, o, gostosa? – Deixa ela subir. Tá limpa, não tá vendo? – Tá é pelada. Sobe lá, o, piranha, com essas teta-bazuca. Saiu mais exposta que entrou. O ventre sujo de sangue. A arma e a cintura ritmadas. Levou tantos quanto pode antes de deitar em mais uma cama dura de piche. Aquele lugar parecia uma criança órfã, cujos pais foram mortos na porra da mesa de natal – ou a mãe que botou fogo na casa, deixando o filho sob o estatuto do completo abandono por meia hora, apenas. Depois, cinzas. Queima de arquivo.
336
336.
QUARTA DE CINZAS. 01.12.2020
336