A história a seguir, corre como se fosse inventada. De certa forma, foi. Afinal, sonhamos o que não imaginamos. Então arrolou-se de fato a criação. O filho incumbiu a mão de pagar a conta. Seguiram até o posto de gasolina. Ao observar as horas, não havia números. Um embaralhado de amostradores sugeriam modelos de relógio. Um sobreposto ao outro. Como uma roleta de imagens. Já era escuro. A fila havia sido encerrada pela porta em final de expediente. – Por favor, moço, deixa ela entrar, só ela. Para pagar uma conta que vence hoje. O segurança, que na face apresentava-se por inúmeros rostos conhecidos, concedeu-lhe a entrada da mãe. O filho foi junto. Desculpando-se com os demais. – Mãe, pague essa conta. – Mas que conta é essa, meu filho, não viemos comprar doces? – Viemos? Bom, aproveita e paga essa conta enquanto eu desenrolo esse fio… O olhar de ansiedade de quem havia sido abandonada na fila. Naquele posto de gasolina – ou caixa lotérica-, a mãe olhava ansioso pelo filho desenrolando um fio de carregador de celular acoplado a uma mesa. A fila andava, o filho embolava mais ainda um nó que começou simples. A vez da mulher pagar a conta chegou. Ninguém conseguia ver nada no papel, um monte de sujeira, rabiscos que mudavam de forma a cada olhada. A ficha caía naquele instante. – Eu não preciso fazer isso… Mãe, vamos embora… Estamos num sonho. – Meu ou seu? – Não importa, essa pessoa não existe… Sem ofensas. A porta automática abriu-se, sem presença de qualquer segurança. O dia estava lindo. – Mas não era noite? Então é assim, é? Quando a gente descobre que tá no sonho pode fazer o que quiser? – Mãe, eu acho que existe algum acordo tácito entre Hipnos e Morfeu. Porque agora a gente pode fazer isso… Segurou firme a mão da senhora. De cima, viram o céu azul-claro tornar-se negro e estrelado. O vento retorcia o beiço da velha. – O quê? – Andar. Andar consciente. Estamos em uma ilusão. Você deve estar deitada em sua cama agora mesmo. – Achei que a gente nunca ia descer. O homem grisalho levantou-se. A pedra onde estava sentado afundou no solo. – Perdoe, preciso interromper… Mas, enquanto estiver por aqui, por favor, não sonhe que está pagando conta. – E você quem é? – Seu filho sabe, senhora? Veja, quando perceber movimentos ordinários, cotidianos, interrompa. Não haverá consequências. Não traga essa sujeira para cá. Hoje foi um bom dia para você, rapaz. – Obrigado. Eu sei quem é você. – E você também sente mais do que vê, do contrário… Bom, se você sabe quem sou eu, sabe também que “ela” precisa ficar. Não pode levar nada do que eu crio aqui. Suponho que já tenha presumido isso. – Meu filho, vou colocar esses doces debaixo do travesseiro, daí quando a gente acordar podemos comer… – Eu sei. Eu sempre soube. – Ótimo. Amanhã, tente não viver um sonho dentro do outro. – Isso mesmo meu filho, uma coisa de cada vez.
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VIAGEM ASTRAL. 04.03.2020
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