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063. CINQUENTA BPM. 03.03.2020 063

– Dona Vera? A Médica já vai atendê-la.  A mulher ainda aprendia a se tornar idosa. Com passos lentos, tortos, chegava ao posto de saúde. Claudicante, como a idade pedia, entregava os documentos a um rapaz. A cada três, meses ouvia “Dona Vera?”. Não guardava rancor, mas “dona”… Me chamem de Vera. Oi, Vera, como está? Que vestido lindo! Vamos sair? Não. Ainda por cima, havia perdido a voz; alguém sempre se adiantava e falava por ela. No posto, a médica auxiliar descrevia seu estado de saúde. À mesa de jantar, quando a família aparecia, uma neta mais cuidadosa fazia às vezes. Vovó está ótima, li os laudos dos exames… O resto do tempo, Vera passava com a melhor amiga. – Tá me olhando com essa cara de safada por que, Pupi? Eu não vou limpar isso aí, vamos esperar a Neide voltar do mercado.  Pupi adorava um canto da casa. O fundo vermelho com muitas pétalas e o vestido percorrendo o cenário.  – Lindo, né? Otávio era um amor nessa época. Depois veio a bandalheira. Vem cachorra maluca, vou te alisar até seus pelos caírem. Imagina só uma cadela careca.  A pequena tinha aprendido a rir junto com a dona. Uma conexão, onde uma adivinhava o que precisava para fazer a outra feliz. A vovó, que nunca saía, planejou uma fuga surpresa até a praça.  – Chegando lá enviamos uma foto. Meus netos vão ficar chocados em ver nós duas tão independentes… Ah! Meu santo. Lá vem Neide balançando a caixa de remédios. Foge, Pupi. Foge.  … – A senhora não sabe mexer no celular? Não acredito. Isso. Assim. Pronto. Enviar.  Vera, pois é assim que gosta de ser chamada, sentava-se ainda como as garotas dos anos trinta sentavam-se. Com os joelhos juntinhos e levemente inclinado.  – E pode apagar? Mas vai para onde depois. Lixeira? Ave, Maria. E isso existe? Ha, ha, ha. Olha isso, Pupi. A gente tá no celular.  A cachorra fazia uma cara de nojo quando a dona a alçava do chão.  – Se a senhora quiser, pode entrar nesse grupo.  – Sei falar esse nome não.  – É a raça da bicha, repete comigo: “i”, “ór”, “qui”, “xai”, “rê”.  – Não. Minha vista dói, Neide. Isso deve fazer mal. Já tá bom.  Os filhos juravam que a mãe seria melhor amiga da enfermeira. Neide sabia que a cachorra ocupava todos os cômodos. Ela, apenas uma convidada. – Vamos entrar? – É o bpm, não é? – Não.  – Tá rindo por que, minha filha? Eu já sei mexer em celular não vou saber mexer nessa pulseirinha? Tá quanto? Cinquenta?  – Não é isso, Dona Vera… – Eu já falei que eu não sou “Dona”. É só “Vera”. Repete comigo: vê, é, vê, erre, a, rá, Vera.  – A cachorra precisa de água. Vamos.  – Claro, isso eu já sabia. Bora, Pupi. Bora! que amanhã tu vai entrar naquele posto comigo. No shopping tú já entra…