A praia é um paradoxo. A espuma fugaz. O movimento interminável das ondas. A vida submersa, repleta de espécies vivendo a diversidade. Em uma cadeia de harmonia. O ecossistema equilibrado… até a chegada das linhas de transporte urbano. O fenômeno colide com a falta de controle, o inesperado. Quanta coisa essa gente é capaz de aturar. A areia branca mistura-se, miscigena-se, sofre toda sorte de mutação. – Gilberto, você não vai tomar uma atitude? – Sueli, nós estamos pagando o preço. Todos nós, linda. – A pelo amor de Deus, homem. Tá na cara que essa gente nem a passagem do ônibus pagou. Recolhe tudo, vamos subir. – Não. Vamos ficar. Os ônibus chegavam pesados, tortos. Vidros quebrados. Gente saindo pelas janelas. A farofa se confundia com os grãos na praia. – Afonso, meus óculos… – Eita! Lurdes. Que pena, segura tua bolsa. Uma equipe da tevê passava filmando o cataclisma social. As agruras de um povo distante. Compartilhavam o mesmo intuito: refestelar-se nas águas do verão. O comércio mudava o humor. Os saques começariam em seguida. O sol era a medida da temperatura nas ruas próximas. – O que você está lendo, Marcos? – Não estou lendo, Virgínia. Vou dar uma volta. Para entrar no olho do furacão, o passe seria a paleta de cor. – Olha lá, Jussara. Se eu não fosse meu marido, diria que era um deles. – Imagina, vê-se pelas roupas, esse short tá ótimo nele. A sombra nas pedras na curva da areia – perto do escoamento da prefeitura-, onde ninguém vai, foi Marcos. – Vi você me olhando, sua cadelinha, quer o quê?… – De você quero nada não, passa a carteira, otário. A vegetação rasteira abriga a sujeira. Brotam mais dois para ajudar no bote da malandra. – Vamos embora, Virgínia… – Quem te machucou, amor. Coitadinho… – Essa gente, baderneira. Não podemos dividir espaço com gente de tão baixa estirpe. O paradoxo da praia continuou, estática e movimentada, viva, mesmo com a novidade: a sujeira do povo de cima, de fora, se refletia na água. Uns vão embora de ônibus e fogem enquanto ainda há tempo. Mas outros, se você deixar bem ao sol, quebra-se a casca. O chorume escorre para onde menos se espera.
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INTELECTUAL NAO VAI A PRAIA. 05.03.2020
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