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027. VAI CHOVER. 27.01.2020 027

A cidade havia recebido o alerta de chuva forte pelo rádio e tevê, eu mesmo não acreditei. Esses caras da tevê sempre julgam que sabem de tudo, mas, na previsão do tempo, sempre erram. Eu peguei o guarda-chuva por precaução mesmo, eu raramente me engano. Não faz mal uma vez ou outra concordar com a gostosa que aponta para o mapa.    – Ei, você. Quanto tempo hein.  – Ai, caralho!  Meu guarda-chuva falou comigo. Eu não acreditei. Continuei a conversa, não ia passar o recibo de cagão.  – Falou comigo?  – Falei. Você está vendo mais alguém nessa sala: Outra coisa, essa gola não combina com você. Melhor trocar de camisa. Eu continuei de pé. Com as chaves na mão esquerda, de frente para a porta, e com o tagarela na mão direita. Devagar, foi se abrindo todo e continuou a me questionar.  – Você sabe que não fala inglês fluente. – Mas que porra é essa que você tá falando, aberração.  – Você acabou de desligar o telefone, está indo para uma entrevista. Não está?  Todo mundo mente um pouco ao telefone. Eu não queria impressionar ninguém, mas eu já viajei para os Estados Unidos, me virei bem. Isso devia bastar. Perguntei como ele sabia tanto sobre mim e o troço respondeu que estava esquecido no porta guarda-chuvas chique, que eu havia comprado para uma festa, que não aconteceu.  – Você é compulsivo, precisa se controlar. Daqui a pouco serei substituído, e você nunca saiu comigo pela rua. Eu quero conhecer a vizinhança. – Eu não sou compulsivo e você não pode estar conversando comigo.  Tentei fechá-lo. Parecia emperrado, ou teimoso e não queria cooperar. Aquilo parecia bem mais forte do que aparentava. A aramado se desdobrou ao contrário e saiu andando pela sala feito uma saia fantasma, observando tudo ao redor. Sentou-se no sofá e aguardou por mim.  – E agora, o guarda-chuva exorcista, vai me matar?  – E agora nada. Já parou de chover, você não precisa mais de mim. Aliás, nunca precisou.