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026. A CIDADE INVERTIDA. 26.01.2020 026

A cidade invertida  Eu tinha acabado de chegar. Enquanto meu cliente não ligava, resolvi dar um passeio pelas ruas. Sempre que viajo sozinha, lembro de minha mãe dizendo “filha você não vai levar mais nada?”. Respondia que minha câmera era meu casaquinho para o frio. Com ela eu estava sempre pronta.  Só não estava preparada para o encontro daquele dia. Sentado do outro lado da rua, na cafeteria que eu talvez pudesse ter entrado, o garoto cutucava uma plantinha que saia do concreto na calçada.  – Você está perdido? Qual seu nome?  – Tô não, dona, tô só esperando mesmo. Me pareceu que ele tinha aquela resposta pronta, que outros já o haviam perguntado o mesmo, pois nem me olhou. Insisti na sua figura intrigante.  – Eu sou muito nova para ser “dona” de alguma coisa, mas você parece ser “dono” do próprio nariz, rapazinho. Meu nome é Anna. E o seu?  – Meu nome é Burá. Minha mãe trabalhou nesta loja aqui ó. Apontou para a vitrine com prensas francesas, meu café preferido. Ele negou mais uma vez meu pedido para entrarmos. Decidi permanecer ali um tempo e o fotografei. Não fazia pose, não se importava com minha câmera. Só permanecemos ali até que as gotas começaram a cair.  – Vem. O rapazinho oriental me puxou para debaixo da fachada da loja.  – Já vai passar, só mais uns minutos.  Era por isso que ele estava esperando: a chuva.  – Quer ver uma coisa legal, tia Anna?  Fiz que sim com a cabeça e o menino tirou do bolso uma pequena máquina de fotografar, antiga, não funcionava mais. Pelo visor o menino podia ver o reflexo da cidade no chão molhado.  Pedi para me ensinar a manusear. Um pouco desajeitada, apertei um olho e abri bem o outro. O reflexo da cidade era idêntico. Mas do outro lado, pela lente da câmera, vi uma terceira pessoa atrás de nós.  Burá riu do meu susto. Eu ainda estava um pouco atônita ao entregar a câmera, não tive coragem de olhar novamente. O menino parecia intrigado e acostumado em espiar a chuva pela lente da câmera.  – Tia Anna, esse menino veio com você. A minha é aquela ali do lado.  Um bom tempo depois daquele encontro, decidi revelar os filmes. Sentada, ao lado de Burá, estava uma mulher, com uniforme de garçonete.