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076. UM CERTO AQUILO. 16.03.2020 076

Em determinado momento, no pico da curva da vida, o homem olha para trás. Vasculha dentre tantas memórias como sua história foi construída. Quer encontrar alguns nós. Alguma coisa ainda não está correta. Procura, procura. Perde-se na busca. Encontra outros vestígios, vai e volta. Por isso a vida só pode andar para frente. Tentar voltar embaralha tudo e o agora passa, o único momento que importa. O resto é poeira.  – Rodrigo, veja se consegue pelo nome completo dela. Marília Fonseca Farias. – Encontrei. É essa? Enquanto o neto pegava os objetos caídos no chão ao virar o monitor para o avô, Rubens procurava por Marília no olhar perdido daquela que se apresentava como um pedaço da sua vida pretérita.  – Não. Não é ela.  Mesmo tendo certeza, Rubens negou. Passeou pela casa enquanto todos comemoravam seu aniversário. Olhou-se no espelho. Tocou-se no rosto.  – Tem uma coisa que não muda jamais, não é meu velho? – Guiomar… Tenho saudades.  – O brilho no olhar. Nada turva o brilho no olhar.  Em algum momento ele viu a fotografia desaparecer de sua vida. Assim como o bronzeado distanciou-se de sua tez. Desceu até a praia com a cópia da mulher no bolso da camisa. Olhava espaçadamente. Colocava no bolso outra vez. Numa dessas, a polaroide foi levada pelo vento.  – Rubens. Não vai me perder de novo, hein.  – Marília…   – Teve uma vida feliz?  – Muito feliz. Você esteve comigo, todos os dias.  A mulher jovem distanciou-se do homem senil. A areia misturava-se ao seu rebolado. Sumira no calçadão.  – Memórias são como o bronzeado de Marília, efêmeras, breves, Rubens. Mas o que você fez com todos esses fragmentos de vida?  – Eu não sei, Guiomar. Eu não sei.  Quem passou pelo homem solitário, sentado, encarando o mar nos olhos, nunca poderia imaginar: a única coisa que movia seus dias era um certo aquilo de Marília, a moça do bar.