Em determinado momento, no pico da curva da vida, o homem olha para trás. Vasculha dentre tantas memórias como sua história foi construída. Quer encontrar alguns nós. Alguma coisa ainda não está correta. Procura, procura. Perde-se na busca. Encontra outros vestígios, vai e volta. Por isso a vida só pode andar para frente. Tentar voltar embaralha tudo e o agora passa, o único momento que importa. O resto é poeira. – Rodrigo, veja se consegue pelo nome completo dela. Marília Fonseca Farias. – Encontrei. É essa? Enquanto o neto pegava os objetos caídos no chão ao virar o monitor para o avô, Rubens procurava por Marília no olhar perdido daquela que se apresentava como um pedaço da sua vida pretérita. – Não. Não é ela. Mesmo tendo certeza, Rubens negou. Passeou pela casa enquanto todos comemoravam seu aniversário. Olhou-se no espelho. Tocou-se no rosto. – Tem uma coisa que não muda jamais, não é meu velho? – Guiomar… Tenho saudades. – O brilho no olhar. Nada turva o brilho no olhar. Em algum momento ele viu a fotografia desaparecer de sua vida. Assim como o bronzeado distanciou-se de sua tez. Desceu até a praia com a cópia da mulher no bolso da camisa. Olhava espaçadamente. Colocava no bolso outra vez. Numa dessas, a polaroide foi levada pelo vento. – Rubens. Não vai me perder de novo, hein. – Marília… – Teve uma vida feliz? – Muito feliz. Você esteve comigo, todos os dias. A mulher jovem distanciou-se do homem senil. A areia misturava-se ao seu rebolado. Sumira no calçadão. – Memórias são como o bronzeado de Marília, efêmeras, breves, Rubens. Mas o que você fez com todos esses fragmentos de vida? – Eu não sei, Guiomar. Eu não sei. Quem passou pelo homem solitário, sentado, encarando o mar nos olhos, nunca poderia imaginar: a única coisa que movia seus dias era um certo aquilo de Marília, a moça do bar.
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UM CERTO AQUILO. 16.03.2020
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