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075. A GRANDE FINAL. 15.03.2020 075

O tempo é uma medida relativa. Para o camponês medieval, dia e a noite bastavam para dividir tarefas. Com o desenvolvimento da ciência, os movimentos de rotação e translação redefiniram os calendários. O homem atual, segue o relógio. Fragmentou o dia em vários micro momentos decisivos. Mas para as pessoas dentro da casa, não. Um segundo já era uma vida inteira de paranoias.  – Alguém tem noção de que horas poderia ser?  – Tamila, tem alguma coisa errada. Hoje seria dia de prova…  Algumas câmeras não se mexiam. A grua do jardim, desde a chuva da noite passada não acompanhava mais nenhum ‘brother’.  – Deve ser algum teste.  – Vamos sair. Isso nunca aconteceu antes. Eu acompanho há dezenove anos. Tem alguma coisa errada, sim.  – Rubens, você é mais alto. Sobe aqui e vê alguma coisa.  – Não adianta dar pezinho. Se for olhar, vai ser eliminada. Melhor abrir e sair logo.  O sinal interrompeu o silêncio. O barulho da advertência não cessava. Os oito membros decidiram juntos irromper a porta de entrada. A mesma que cada um iria atravessar ao ser eliminado. Nunca todos juntos. O corredor escuro não indicava um caminho.  – Tamila, que nojo. Alguém ajuda aqui. – … Desculpa, gente… o cheiro…  – Nossa, parece que um bicho morreu. Tá podre.  Seguiram lentamente carregando a ‘sister’. Esbarravam-se pela trincheira afunilada por fios e andaimes. Uma luz vermelha indicava a origem do alerta sonoro ininterrupto até àquele momento.  – Eu vou enlouquecer. Já estamos todos eliminados. Isso é o fim desse programa. Logo na minha vez.  – Carmen, já estamos há quatro dias sem nenhuma comunicação. Tem alguma coisa rolando, sim, cara. Se toca… Que merda! – Ele tá morto? – Tá. E fedendo muito… desculpe. Não consegui segurar. – Não precisa limpar, Tamila já vomitou no outro.  A sala de controle das câmeras foi encontrada. Um membro da equipe de filmagem havia rolado sobre o painel. Empurraram e o barulho cessou.  – Vamos ligar para a polícia? – Vamos é sair daqui. Alguém matou esse homem. Seguiram as luzes que apareciam. Cada corredor, um odor parecido, com o detalhe do perfume pessoal e comida estragada.  – Eles não foram assassinados. Estão apenas mortos. Há pelo menos três dias. – Você é veterinário, Rômulo… Não médico forense.  Finalmente alcançaram a rua.  – Mas que merda é essa? O mundo acabou… Eu quero meu dinheiro.  – Mas o que você tá fazendo, Tamila? – Ligando pra casa.  – Deixa essa porcaria aí. Deve estar contaminado. Dê alguma dignidade a este homem. Ladra. Por isso a gente não conseguia conviver na casa, você é insensível.  – Dá pra calar a boca, estou pensando…  – Diz então, o, líder da semana…  que acha que devemos fazer.  – Sinceramente? Voltar para a casa cenográfica. Aquele teatro é a única coisa real pra gente agora.