O tempo é uma medida relativa. Para o camponês medieval, dia e a noite bastavam para dividir tarefas. Com o desenvolvimento da ciência, os movimentos de rotação e translação redefiniram os calendários. O homem atual, segue o relógio. Fragmentou o dia em vários micro momentos decisivos. Mas para as pessoas dentro da casa, não. Um segundo já era uma vida inteira de paranoias. – Alguém tem noção de que horas poderia ser? – Tamila, tem alguma coisa errada. Hoje seria dia de prova… Algumas câmeras não se mexiam. A grua do jardim, desde a chuva da noite passada não acompanhava mais nenhum ‘brother’. – Deve ser algum teste. – Vamos sair. Isso nunca aconteceu antes. Eu acompanho há dezenove anos. Tem alguma coisa errada, sim. – Rubens, você é mais alto. Sobe aqui e vê alguma coisa. – Não adianta dar pezinho. Se for olhar, vai ser eliminada. Melhor abrir e sair logo. O sinal interrompeu o silêncio. O barulho da advertência não cessava. Os oito membros decidiram juntos irromper a porta de entrada. A mesma que cada um iria atravessar ao ser eliminado. Nunca todos juntos. O corredor escuro não indicava um caminho. – Tamila, que nojo. Alguém ajuda aqui. – … Desculpa, gente… o cheiro… – Nossa, parece que um bicho morreu. Tá podre. Seguiram lentamente carregando a ‘sister’. Esbarravam-se pela trincheira afunilada por fios e andaimes. Uma luz vermelha indicava a origem do alerta sonoro ininterrupto até àquele momento. – Eu vou enlouquecer. Já estamos todos eliminados. Isso é o fim desse programa. Logo na minha vez. – Carmen, já estamos há quatro dias sem nenhuma comunicação. Tem alguma coisa rolando, sim, cara. Se toca… Que merda! – Ele tá morto? – Tá. E fedendo muito… desculpe. Não consegui segurar. – Não precisa limpar, Tamila já vomitou no outro. A sala de controle das câmeras foi encontrada. Um membro da equipe de filmagem havia rolado sobre o painel. Empurraram e o barulho cessou. – Vamos ligar para a polícia? – Vamos é sair daqui. Alguém matou esse homem. Seguiram as luzes que apareciam. Cada corredor, um odor parecido, com o detalhe do perfume pessoal e comida estragada. – Eles não foram assassinados. Estão apenas mortos. Há pelo menos três dias. – Você é veterinário, Rômulo… Não médico forense. Finalmente alcançaram a rua. – Mas que merda é essa? O mundo acabou… Eu quero meu dinheiro. – Mas o que você tá fazendo, Tamila? – Ligando pra casa. – Deixa essa porcaria aí. Deve estar contaminado. Dê alguma dignidade a este homem. Ladra. Por isso a gente não conseguia conviver na casa, você é insensível. – Dá pra calar a boca, estou pensando… – Diz então, o, líder da semana… que acha que devemos fazer. – Sinceramente? Voltar para a casa cenográfica. Aquele teatro é a única coisa real pra gente agora.
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A GRANDE FINAL. 15.03.2020
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