A primeira aconteceu logo no início do dia. Ao atravessar a rua, a criança sorriu para mim de uma forma desafiadora. Exatamente como deveria. Ao chegar no trabalho, uma amiga veio conversar. Um buraco, nada no lugar dos olhos, como dizia a mensagem: “Ela não pode ver você?”. Derramei o café, disse que não me sentia muito bem e voltei para casa. Ignorei as vibrações. A mulher atropelada pelo ônibus; no restaurante, pombos camicazes sobre os clientes. Uma garçonete projetava seu corpo em minha direção. Os tiques nervosos voltaram com a ansiedade. O esbarrão com a senhora aleijada. Que cheiro horrível! Todos, todos eles pareciam fazer parte de alguma ceita. Passei o trinco, tetra e virei duas vezes a chave. Minha tarde foi um alívio, segura dentro do meu apartamento. Chá morno, liguei a tevê. Num gesto automático, saquei o celular. Estava tudo lá, os olhos, a garçonete, os pássaros, a mendiga, e a sexta mensagem: “até destrancar tudo…”. Pulei todos os degraus, as chaves não estavam na maçaneta. A luz apagou, os estilhaços de vidro e uma voz sintetizada repetia para não olhar para trás.
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TROMBETA. 22.08.2020
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