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234. KINTSUGI. 21.08.2020 234

O gosto da chuva e o gosto do metal no sangue. Carro não havia mais, era uma massa de miolos e ferragem. Daquela altura o estrago poderia ter sido maior. Ninguém conhecia. Os peitos ainda rosados explodiram na seda. Estampido bruto, vindo de uma mulher. A figura exposta, fratura múltipla. O fim da gueixa. O líquido metálico reagiu. Anéis e talheres liquefizeram-se. Clientes não percebem nada, vivem do engano  das cenas. Os filetes corriam pelos cantos, pelas frestas. A despeito do frio, o metal chegou quente. Entrelaçou as fibras, recriou a trama, pulsou em forja. Ergueu a geiko refundida. Se quiser subir e se vingar, não pode haver testemunhas. A noite em que nenhum cliente pagou a conta. Nenhum prato foi servido para o jantar. Gente esnobe, da espada só viram a ponta. Uma porta se abre no último andar. Nunca mais falhar.