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035. TREVAS. 04.02.2020 035

Grinn perseguia o feixe de luz. Tateava o ambiente desconhecido. Um quarto sem paredes para tocar. Não havia chão para sentir-se seguro, à frente um claustro. Correu no tropeço desajeitado de quem aprende a andar. Fugiu para lugar algum.  Como um farol que leva e traz o breu, a luz cegou os olhos do homem, que, não se lembrando do próprio nome, inventou este. Como um velocista, lançou o rosto na direção da luz. A angústia: não reconhecia a própria face. Membros, tronco e cabeça. Percebeu-se e tocou a testa: sentiu o frio e a gosma dos répteis. O cheiro de lodo havia infestado suas mãos que agora balançavam em nova corrida.  Sentiu a expectativa do medo. Olhos amarelos e agudos piscavam distante. No chão, a dor nas articulações. A visgo que interrompeu a passagem surgira como uma cobra sorrateira. Pediu o pouco fôlego que restava no pobre bicho acuado. Cruzou os braços para proteger-se da poeira que subia. As vias aéreas entupidas. Puxou ar, não veio. O odor de coisa velha repunha o nojo do pântano úmido. Suas mãos se tornaram imundas, levou os dedos à boca, o gosto alcalino o fez vomitar. 

  • A luz voltou!  Seguiu o instinto de livrar-se dali, sem forças, caiu em coma profundo…  Sua perna direita se ergueu. Depois a direita também, o tronco se levantara sozinho e todo o seu corpo flutuava numa bola de tampas de caneta, guarda-chuvas e fios de cabelo. As paredes se tornaram nítidas, se estreitaram, apertavam o pobre. A circulação do sangue comprometia as extremidades. Estava sendo expelido.  A explosão frenética arranhou sua pele e limpou com cortes afiados o sebo incrustado. O canhão detonou a casca besuntada de podridão. Tudo aquilo sumia no ar. O túnel foi se tornando mais claro. Ao final, duas cavidades luminosas piscavam acelerado.  O gosto ferroso na língua. O vidro do espelho quebrado. O prédio soturno, o banheiro imundo da boate Trevas no centro da cidade, seria palco para mais uma crise de Carlos.