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034. O ESCOLHIDO. 03.02.2020 034

O cheiro se misturava nos corredores. De um lado sabão em pó, do outro, azeites e vinagres.  – Quem teve essa ideia genial?  Uma cliente se calou para ouvir dois funcionários conversando. Pegou qualquer produto e fingiu analisar o preço.  – Vou meter o pé daqui.  – Mano, tu bagunçou as prateleira lá véi. Essa gerente cuzona vai mandá nois vaza daqui. Cê é loco? A moça curiosa largou o produto uma vez, mas voltou para colocá-lo no carrinho, e ouvir mais um pouco da conversa. – Com licença. E deu uma risadinha. Onde ficam os produtos dietéticos? Os dietéticos ficavam no segundo corredor à direita, depois dos farináceos. A moça seguia na direção oposta. Sentiu cheiro de carne. Decidiu pegar o final da fila. Uma outra moça, mais jovem, e delicada, demorava a ser atendida.  – Me vê um quilinho e meio de chã de dentro, por obséquio.  Os dois açougueiros de plantão no feriado se olharam. Entregaram qualquer parte do boi moído, e talvez umas partes de porco, e a cliente pegou satisfeita.  Na entrada, vinha um garoto de uns seis anos. Seus dedos alisavam todas as embalagens e enlatados expostos no corredor. Levou um tapa na mão antes que o dedo chegasse à boca.  Virando em direção ao caixa, uma senhora, já muito velhinha, tentava resgatar a lista de compras em algum lugar no celular. Colisão frontal.  – Ah! tá de sacanagem. Wellington, vai você, tá quase na minha hora.  – Ah! mano acabei de chegar, vai se fudê, vô limpá essa porra não. Steffany, a recém contratada, estava lá limpando o chão com tanta vontade que acabou derramando mais produtos com a vassourada que deu na quina do pó de café.  De longe os outros dois funcionários tiravam fotos e riam.  Os produtos dentro do carrinho ficaram imundos. A batata voltou para o expositor de hortifrúti. O inhame, que alguém chamou de cará, era mais peludo… todo sujo de detergente. O leite abriu e por um pouquinho assim me salvei. Esse plástico fininho livrou a minha pele. Quase fui tirado das compras, mas sobrevivi ao acidente no corredor do supermercado.  Vida de rabanete é difícil. Mas o pouquinho que a gente põe a cara fora da terra, vale a pena demais. Foi ótimo conhecer o pessoal do supermercado, mas, dentre tantas hortaliças… fui plantado, regado e selecionado. Mais uma vez.     – Crédito ou débito, senhora?