Achei que nunca mais iria me lembrar daqueles dias. Hoje pela manhã, uma senhora passou por mim. As sobrancelhas entregavam a origem paquistanesa. Puxava a neta desajeitada, que, por sua vez, puxava uma boneca idêntica. Mas a da minha infância tinha os cabelos trançados. Mauro, ninguém deve se lembrar…, mas ele era meu colega de turma, da primeira série, acho. Uma vez puxei meu rabo de cavalo para cima e fiz um coque. Bem desajeitada, queria fazer como as meninas da quarta série. – Margô, sua nuca é linda. Seu nariz estava roçando lá atrás. Empurrei-o. Passei a trançar meus cabelos, e os cabelos das bonecas também, com a nuca bem à mostra. Até hoje uso, é calor onde moro. Quando não está calor, digo que mulher é assim mesmo. Houve o tempo antes das tranças, antes das bonecas, antes até mesmo do Mauro: quando me mudei para o novo bairro onde tudo isso iria acontecer. A casa nos foi vendida por um preço bem baixo, meu pai aproveitou a oportunidade. Carregou tudo que podia e nos alojou sem antes mesmo fazer a limpeza. – Filha, pega suas coisas e sobre pro seu quarto, tá bom? Não desça enquanto eu não te chamar. Obedeci. Precisei subir mais duas vezes, na terceira meu pai pediu para eu permanecer no quarto. Não tive coragem de entrar até ser obrigada. A porta era estranha, de madeira. Tinha umas lascas. Se alguém a tivesse arranhado com as unhas teriam aquele aspecto. O carpete, pelo menos até onde me lembro, era empoeirado e tinha umas manchas fedorentas. A cama sem o colchão, o estrado tinha uma curva para baixo. Eu tinha certeza que ali não tinha sido um quarto de criança. O cheiro… não consigo me lembrar mais, a memória da gente apaga coisa muito ruim. Agora vem a melhor parte, quando ela me deu a Roselita, minha primeira boneca. Eu já tinha me acostumado com o quarto. Na primeira semana meu pai ainda não entrava lá, só para me botar para dormir. Ele não parecia ter notado o guarda-roupa feito com a mesma madeira da porta do quarto, e com os mesmos arranhões. A diferença é que os arranhões estavam do lado de dentro das partes do armário grande. No meu primeiro dia de aula fui sozinha mesmo, meu pai disse que não podia. – Filha, vai andando nessa direção, tá vendo lá. Eu disse que sim quando avistei o prédio e as crianças correndo. Eu morava muito perto da escola, mas para uma criança tudo era longe, deu preguiça. Assim que botei os pés para fora de casa, dois carros chegaram e algumas pessoas cumprimentavam meu pai do lado de fora. Não deu pra ver se entraram. – Pai, já cheguei, alguém em casa? Pelo menos umas seis pessoas estavam andando pela sala com antenas de tevê apontadas para o teto, ou pareciam ser antenas. Esconderam rápido, alguns largaram em cima da mesa e meu pai tapou minha visão com seu corpo. – Filha, você chegou cedo… Tentei olhar por entre suas pernas, mas ele me virou e pediu que eu subisse rápido. – Raquel, você pode levar uns biscoitos e um copo de leite para Margô, sim? A mulher, que eu nunca tinha visto até aquele momento, subia as escadas com um prato emborcado por cima de outro e uma dessas antenas no bolso de trás do macacão. O barulho da louça trepidando com seus passos me assustou um pouco. – Uma menina morreu no nosso primeiro dia de aula, nos mandaram para casa. Esperava que a mulher enviasse o recado a meu pai, que não perguntou o motivo de eu já estar em casa. O aparelho da mulher apitou, um barulho fino parecia um pássaro assustado, e todos lá embaixo chamaram por ela. Eu estava no quarto, sozinha segurando, de pé, um prato sem saber o que tinha dentro. A porta atrás de mim se abriu. Eu já tinha sentido o cheiro de cigarro, meu pai fumava ocasionalmente, desde a morte de minha mãe, mas aquele cheiro era mais que cigarro, tinha um pouco de folhas velhas ou musgo, eu já fiz uma casa debaixo de uma árvore atingida por um raio. Saudade do outro bairro. De dentro do guarda-roupas a boneca vinha em minha direção. Só depois percebi que a mancha no tapete vinha de lá. As mãos que carregavam a boneca deixavam cair umas sujeirinhas no carpete. Parecia pele velha, de cor cinza alguns pedaços soltavam. Pareciam ser de mulher. Eu peguei a boneca, ainda não usava tranças, achei o laço vermelho lindo, mas não combinada com o cabelo loiro, seria melhor se a boneca fosse morena. Quando retornamos para as aulas, a foto da menina, que não conheci, estava no mural. Umas frases bonitas escritas pelos colegas. Senti um pouco de inveja, confesso, tantos amigos. Ela tinha a pele alva, quase igual a da minha boneca. Os cabelos longos e um bonito laço vermelho. Na semana seguinte, a moça do armário parecia ter adivinhado que eu preferia uma boneca de cabelos morenos. Voltei mais cedo para casa naquela semana. Mas tudo bem, na escola ninguém falava comigo, vai saber… quer dizer, menos o Mauro, que eu mesma inventei. Mas hoje ele só uma lembrança, um fantasma do passado.
036
036.
NAO CHEGUE CEDO. 05.02.2020
036