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331. TINTEIRO. 26.11.2020 331

Ao encontrar esta carta considere meu fim. Sempre quis dizer isso, mas, nessa cidade, nada interessante moveria as intenções da própria morte, sucumbiria no mais profundo tédio. Você, provavelmente, deve ser meu sucessor. Estou cansado, velho, escrevo esta para que evitemos qualquer diálogo. Hoje é segunda-feira de um dia qualquer, pois não saberia quando foi escolhido, sei que será breve. Esta é uma mensagem de um passado cinza, para alguém que prevejo ocupar meu lugar no futuro. Não ouviria nada do que tenho a dizer durante anos deste burgo. Desde a tomada do poder pelos militares, já se previa sua extinção. Muitas riquezas, poucos quilômetros e vários, muitos, inumeráveis abutres. Sugiro, se me permite já iniciar uma transição, que comece pelo prefeito. Filho de quem é, e não havendo eleição, está onde está – há décadas – por motivos escusos. Vai encontrar ligação com o chofer, o único com autorização para elevar a ponte em dias de neblina, ele tem a chave da cidade para alguém que planeja uma fuga, talvez, eventualmente. Deixei nome e o registro da arma do safado na segunda gaveta. Não me orgulho da chantagem, mas é um jogo entre nós. O cassino é parte do esquema, clandestino como deve imaginar. Observe o movimento da praça onde se encontra o busto do maldito, cujo nome me recuso a deitar sobre este papel importado. Na quarta e sexta-feira, perceberá que o banco encerra os serviços no início da tarde, sem que isto conste nos registros desta filial, caso apure. A senhora Margô passa pela avenida larga à noroeste do busto do imundo, entra na joalheria da senhorita Von Strauss e deixa o estabelecimento pelos fundos. Observe duas moças com idênticas vestimentas. Uma toma seu lugar no automóvel, a outra desce em sua companhia. Nenhum assunto contido neste documento deve receber publicidade. Há motivos óbvios. Uma carta assim está com tantos problemas, e, de fato, os são verdades, que foram necessárias várias dobras para que coubesse neste discreto esquife que acompanha a caneta. Objeto modesto, mas útil para o cargo. Não é um presente, perceba, pois retornará. Tão logo o veneno, que o senhor mesmo levou à boca, o mate. Use o tinteiro sobre a mesa, ainda restam alguns minutos até o total sufocamento. Respire fundo, ou será mais rápido e talvez não termine a redação. Escreva algo para sua bela noiva de fartos cabelos ruivos. Farei o possível para que ela receba, em mãos, as últimas palavras desse amor, que prevíamos promissor, e infelizmente precisou ser interrompido. Não fosse por sua ganância, prosperaria, figurando como as novas personalidades deste modesto vilarejo. Cordialmente…