O garoto andava sozinho pelo praça, me lembro bem, dizia que a família havia chegado da Itália, mas ele não tinha sotaque… Tampouco parentes. Sempre andava por lá sozinho. – Talvez fosse alfabetizado aqui? Que idade tinha? – Você é uma boa repórter, mas ele não parecia ser educado. Por volta dos cinco anos. Onde estávamos? Sim: Eu o via todas as manhãs, no caminho para a produtora. Um dia, resolvi segui-lo. Eu tinha uns minutos, demos a volta no quarteirão. Numa rua estreita, perto do cinema, tentou entrar por uma porta emperrada. O coitadinho não tinha forças para empurrar. Ajudei-o. – Por favor, moço, eu não estou invadindo nada. Eu sou bom. Não sou? Eu acho que sou bom. Não me prenda. Não fiz nada. – Calma, pequeno. Pronto, agora você consegue passar. Eu sabia onde ele morava. Com a falta de tempo, voltaria apenas uma semana depois. Mas ele não estava lá… – E o que o senhor encontrou? – Por favor, não precisa me chamar de senhor. – Me desculpe, mas eu não sei como chamar um cineasta de tanto sucesso. Não ousaria chamá-lo apenas de Lorenzo. – Então me chame de Pavoni. Que tal? – Algo a ver com a sua famosa história do exército? … A do filme? – Exato. Me sinto mais próximo daquele tempo… Quando retornei, a porta estava na mesma posição em que eu a havia deixado. Meio torta, meio aberta. O garoto apareceu logo em seguida. Trazia consigo uma caixa. Disse-me que ali não tinha nada para mim. Eu não me ofendi, imagina… Mas eu queria saber o que tinha na caixa. – E o que era? – Me permita continuar. Não quero privá-la do melhor. – Sim, sim, claro… A caixa estava vazia. Não havia nada, tão vazia quanto o estômago do rapazinho. Ouvimos algo. Ele passou por mim como seu eu não o intimidasse. Como se um homem bem-vestido, de roupas limpas, não fosse um contraste no cinema há pouco abandonado. Segui-o até um outro cômodo nos fundos da sala. Lá estava ela. Tão bela quanto podem ver hoje. Uma graça. – Isabela? – Ela mesma. Subia em uma, duas… a terceira caixa Felipo trazia. O irmão disse que ela havia caído outro dia e machucado os joelhos. Por isso me roubou a bolsa dentro do carro. – O senhor veio atrás disso, não é mesmo? Me perdoe. Eu precisava de remédio. Veja é parecida, mas a sua bolsa estava vazia. Ele me apontou um cartaz onde havia uma enfermeira beijando um homem. No chão, uma bolsa de primeiro socorros havia sido abandonada no abraço. – Um dia ela vai crescer e vai conseguir descer sozinha, senhor. Eu soube o que fazer naquele instante. – Podemos dizer que, nesse caso, a arte imitou a vida. – É… Eu acho que podemos sim. Afinal, aquele filme também era meu. E a guerra trouxe-me dois filhos de um soldado que não voltou para casa… Isso é tudo? – A bolsa? – Exatamente. A mesma do cartaz. Estava jogada no banco de trás do carro com outras quinquilharias de filmagem. O escritório novo estava quase pronto. – Quando tudo está perdido… parece que a arte vem ajustar a realidade. – Eu disse que você era uma boa repórter… Talvez eu tenha feito o filme da enfermeira para que Felipo e Isabela tivessem um lar. – Um filme sobre perdas… é… talvez… – Talvez, não. Foi isso mesmo.
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TALVEZ NAO. 06.03.2020
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