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048. TA TUDO AI. 17.02.2020 048

Sobre a composição da água; duas partes de hidrogênio e uma parte de oxigênio. Alguém me contou. Nunca botei nada num desses microscópios e testei. Também, eu não saberia o que fazer com aquilo tudo se mexendo. Devolveriam-me a olhada. O que será que pensam os átomos? De cima, se você observar a multidão – numa dessas imagens aéreas – verá que é muito parecido: uns pontinhos se mexendo para lá… e para cá… Apertados em movimento no espaço. Tudo é conflito.  Os átomos, as moléculas, ali, no vidrinho do laboratório. Podem estar na maior farra. E a gente, do lado de fora catalogando. Dando números, e separando em categorias da tabela periódica. Qual será o sonho de um daqueles pontinhos? Será o mesmo do americano? Será que questionam? Não, porque a filosofia boa mesmo, aquela raiz, é a filosofia executada no diálogo. Mas, daí, se a gente não se fala mais… vai se empurrando, que nem o povo do bloco, no carnaval – para onde será que eles tanto olham?  Um dia, alguém vai se espantar, quando, ao observar o vidrinho na sala esterilizada, um levantar a cabeça e der uma piscadinha pra cima. Quero só ver a cara do pesquisador, cientista ou sei lá quem estiver para ver.  Mas bonito, bonito, mesmo, deve ser observar os átomos numa reunião. Entrando no acordo mais bonito que tem: a feitura de tudo que há. Eles todos negociando cada posição e movimento. Combinação com a totalidade, a suprema dona das vontades. A natureza aprova o projeto e a construção começa.  Primeiro, vem o passarinho. Já todo feito. Você escolhe nome, modelo e cor. Obra entregue. Depois, pega as duas partículas de hidrogênio, e uma de oxigênio, e mata sua sede. Revigorado, poliniza. Vira o fornecedor para o que virá. Um lindo projeto de aglomeração verdinha. Trazem guindaste, desenrola uma ponta. O vento joga pra lá e pra cá e quase arruína tudo. Mas os pontinhos verdinhos, acelerados, se empurram e modelam.  Erguem mais um pouco dali. Trazem balde. Tinta. Pintam. Chega dói os olhos de ver no sol. O que parecia um feijãozinho… feinho, gelatinoso, toma forma: desata o hibisco, desavergonhado, digno de pagamento. Porque o passarinho volta. Doce é capital.  Tá tudo aí, só observar.