Fabrício procurava pela sala inteira. Ela parece uma criança com tanta almofada. – O, Débora, onde que tá? O som abafado do banheiro, misturava-se aos ruídos da reforma no apartamento ao lado. A poeira entrava com o ar fresco da praia pela janela da sala. – Onde? … Oh! Puta mer… – Que isso amor, por que tá xingando? – A poltrona. Pé. Ai, ai. ai. – Tadinho, respira fundo que passa. – Seus … peitos… – Que têm eles? – Tão aparecendo… ai, ai, ai… Pega o mertiolate pra mim. – Mas não está sangrando, espera que passa. Respira. Isso. Assim. – Cobre esses peitos, por favor… olha o vizinho. Que dor desgraçada, ai. Mais tarde. – Isso, Roberto, veja se gostou. Ler de novo? A caneta na boca impediu o som de sair com clareza. Procurou um fone e sentou-se na mesma poltrona da topada mais cedo. Enfiou a mão no calção e começou a recitar ao telefone: – “Toda dor é passageira. Quantos momentos de glória não vêm e vão, de quantos apogeus ela precisava para ser livrar do estigma, da síndrome de impostor que a impedia de avançar…” Que parte? Ah! Tá… Não gostou o quê? – Credo, Fabrício, você não está cheirando… – Ih! Debs, você não gosta do meu cheiro? Não, Roberto… Claro, desculpe. Melhor, amanhã nos falamos. A luz da cozinha piscou até se tornar estável. O barulho dos talheres tilintava como lampejos de inspiração. – Amor… – Me deixa cozinhar, tentação. O cheiro no pescoço. A mão exalava anticéptico com hidratante. As panelas queimando no fogão. – Você não tinha que escrever? – Eu estou escrevendo. Agora, inclusive. – E o que você estava procurando mais cedo? – Inspiração. – E encontrou? – Eu, não. Mas ela sempre acha um jeito dolorido de me encontrar.
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FOGO FATUO. 18.02.2020
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