049
049. FOGO FATUO. 18.02.2020 049

Fabrício procurava pela sala inteira. Ela parece uma criança com tanta almofada. – O, Débora, onde que tá?  O som abafado do banheiro, misturava-se aos ruídos da reforma no apartamento ao lado. A poeira entrava com o ar fresco da praia pela janela da sala.  – Onde? … Oh! Puta mer… – Que isso amor, por que tá xingando?  – A poltrona. Pé. Ai, ai. ai.  – Tadinho, respira fundo que passa.  – Seus … peitos…  – Que têm eles?  – Tão aparecendo… ai, ai, ai… Pega o mertiolate pra mim. – Mas não está sangrando, espera que passa. Respira. Isso. Assim.  – Cobre esses peitos, por favor… olha o vizinho. Que dor desgraçada, ai.    Mais tarde.  – Isso, Roberto, veja se gostou. Ler de novo? A caneta na boca impediu o som de sair com clareza. Procurou um fone e sentou-se na mesma poltrona da topada mais cedo. Enfiou a mão no calção e começou a recitar ao telefone: –  “Toda dor é passageira. Quantos momentos de glória não vêm e vão, de quantos apogeus ela precisava para ser livrar do estigma, da síndrome de impostor que a impedia de avançar…” Que parte? Ah! Tá… Não gostou o quê?  – Credo, Fabrício, você não está cheirando…  – Ih! Debs, você não gosta do meu cheiro? Não, Roberto… Claro, desculpe. Melhor, amanhã nos falamos.  A luz da cozinha piscou até se tornar estável. O barulho dos talheres tilintava como lampejos de inspiração.  – Amor…  – Me deixa cozinhar, tentação.  O cheiro no pescoço. A mão exalava anticéptico com hidratante. As panelas queimando no fogão.  – Você não tinha que escrever?  – Eu estou escrevendo. Agora, inclusive.  – E o que você estava procurando mais cedo?  – Inspiração.  – E encontrou?  – Eu, não. Mas ela sempre acha um jeito dolorido de me encontrar.