“Mais uma manhã extraordinária em Involuntária. Prepare o seu Pod com um agradável alongamento nos cabos e…” bip. – Mãe, eu estava esperando a parte da previsão do tempo. – Interessante, e por acaso você já deixou de sair de seu Pod por conta da chuva? – Bom dia, meus anjos. Croz está reclamando do novíssimo modelo PodZup 2.0? “Meu” presente de formatura? – Não, Log, ele ainda insiste nessa coisa de ar livre, previsão do tempo… – Filho… você sabe que nossa casa é preparada, nossos pods são à prova de arrebatamento e que essa baboseira de ar puro é coisa dos polarizados, não é? Antigo esse papo. Cresce, você já se formou na academia de Megas. E aí, vai para Resgates ou Tecnologia? Croz olhou para fora. Um fio de luz invadiu a cozinha. O jovem empurrou o prato até a claridade. Estourou a gema com o garfo. A primeira porta se abriu diante da mesa do café. A mãe já estava em seu tamanho habitual; o dobro da langorosa senhora que servia o café. Os braços mecânicos terminavam o serviço na casa. O pai abria a segunda porta. – Cuidado com a Luz, Log. Fecha uma e “depois” abre a outra… – Croz, anda. Sobe logo e vamos. Dana, você leva a Garla para a aula hoje, ela ainda não sabe comandar a cápsula infante. A rua, até o centro de formação, continha segmentos de grandes caixas cinzas idênticas. Vidros pretos envelopavam as fachadas. Mineravam a energia para dentro das casas. Impossível visitar o interior, nenhum relance. Nenhuma troca de olhar. – E aí, amigão… Tá descarregado? – Tô, cansado, Prax. Eu queria correr por aí, ralar meu joelho, e não ter que trocar uma peça dessa lata. Dar linha na… como chamava, aquilo na aula de mitologia? – Pipa, nome engraçado, né? – Isso… Me libertar. Vivemos preso em casa. Na rua. Dentro dessas esquifes. Telas, telas. Fios, conexões. Eu queria saber como é nadar num mar sem fim. Sumir no horizonte. – Você tá é precisando de uma análise completa do sistema. Eu já estou sonhando com Zup 3.0, olha, vão lançar em dois dias. Todos os Pods só falam disso. Você leu o artigo sobre biointegração neural? Você ainda não tá pronto pra esse seu Zup aí… De dentro da armadura de Microlattice e painéis, Croz calibrou o reversor de exibição. Tudo que via, chegava invertido. A notícia que o amigo compartilhava, espelhou as letras ao contrário. Como as imagens avessas das antigas selfies – que ele havia aprendido na mesma aula sobre a mitologia dos povos polarizados – os mesmos que iniciaram a era dos arrebatamentos. Se lembra de cada detalhe da explicação de uma aula exibida, sincronicamente, para seis unidades de ensino orgânico. – Bem-vindos a mais uma “live” para lembrar a vocês a importância dos autômatos, ou Pods, como preferirem… E a guerra teve início…. As bombas influenciaram nossa gravidade… os arrebatamentos começaram… As Américas uniram-se… impediam que mais gente fosse… – Aí, Croz, sabe qual a parte que eu mais gosto? – Quando descobrem “por acaso” que os Pods nos protegiam? – Poderia ser, isso foi a maior cagada. …Tokyo?… Sem contar que salvou a nossa pele… Imagina? Não poder admirar essa obra de arte. Um emoji escatológico imprimiu a tela de Croz. – Então fala logo, não consigo consertar meu visor. Envia o som pra minha cabine? – Ah, deixa… você tá um pouco estranho hoje. Bora pra sala de simulações: Rave, última moda nos servidores… Só precisamos baixar uns drives dos Pods que retornaram do… você sabe. – Dos platôs… Longe dali, um autômato subia a trilha íngreme que levava até o ponto mais alto da cidade de Involuntária. A pressa para alcançar, deixava partes soltas, destruídas pelo caminho. No galho de uma árvore, uma luva movia os dedos entre faíscas. A luz invadia as engrenagens com desejo explorador. O formato de ovo com pernas articuladas impedia a etapa final. Maldito Zup 1.0. Alguém dentro daquela armadura se libertou da rigidez de uma vida inteira. Aprisionado a uma capa externa, insensível. Castigo e proteção. A violência da natureza puniu mais um filho pródigo, perdido. Resiliente até ali. O sol queimou-lhe a face, o vento levou as células consigo. Pele. Músculos. Nervos. Ossos. Pó. Liberdade tardia. – Que houve, Prax? – Ban… subiu ao platô esta tarde. Seu visor está apagado? … Alguns dias depois, um outro autômato subia em direção ao mesmo elevado inóspito. Cemitério de tantos Pods predecessores. O moderno Zup 2.0, ainda conseguiria levar Croz em segurança até o topo. Chegou intacto. – … a hora mágica… é lindo. Um clic, e o tampo defeituoso liberou o ar de dentro da cápsula. – Eu não sou um fraco. Outro clic, e a parte esquerda pulou. O som da despressurização percorria o platô. – Todo homem é forte. A ausência da proteção, revelou a imagem do garoto de cabelos escuros, pele intocável. Moléculas de calor precipitaram o líquido da superfície de seu corpo nu. O arrepio explorava o novo corpo, entregue ao sacrifício. O hábito de proteger-se fora ignorado. A coragem de tornar-se o milagre, de assumir-se divino. – Prax, acho que você vai querer ver isso… A mensagem corria em looping no visor quebrado. O amigo inverteu o capacete… Hábito… Desejos… Pensamentos….- “Maharshi”… – Não copiei… – Nada, é só uma coisa que vimos na aula de mitologia… A equipe de resgate desceu o cemitério carregando dois Pods vazios. Ao entregar o equipamento, Prax disse para a família: “todo homem é divino em sua real natureza”. Repetiu, mais uma vez, para si mesmo.
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A PARTICULA FANTASMA. 16.02.2020
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