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240. SUSPEITO. 27.08.2020 240

Aquela sensação de estar sendo observado apareceu num dia, no outro se tornou uma obsessão. Agarrou a porta, preencheu a sala de pegadas. Arrumava a casa num dia, e no outro já estava caótica, precisava de ajuda. Ninguém respondia no site. Sentou mais uma vez ao computador. As mãos sujas de queijo deslizavam com violência pelas teclas de caracteres apagados. Se virou, a sensação estava lá com ele. Bebeu, comeu e deitou-se. Os remédios fazem efeito mais rápido quando ele se cansa durante o dia. Enfiou a mão embaixo do travesseiro, pinçou a almofada com os joelhos. Dormia de frente para a enorme janela que vinha até o chão. O computador, na direção oposta, piscou uma luz fina e fraca. A batedeira conseguiu atravessar o corredor em silêncio, carregada pelo aspirador de pó giratório. A escova de dentes elétrica trocava as hastes por lâminas afiadas. O ventilador de teto, agora pendurado por apenas um parafuso, diminui a velocidade. As plantas já estavam mortas. Somente uma pessoa podia salvá-lo, mas, para isso, precisava revelar o motivo de o estar observando do outro lado da rua, há quase um mês. Interromper um crime é algo íntimo demais.