Sem vício, saiu para fumar. Qualquer desculpa precisa de detalhes, o maço de cigarros andava no bolso da camisa em toda reunião de família. Resolveriam o que fazer com a fazenda do irmão, desaparecido. A conclusão era de que tinha caído pelo mato e algum bicho comeu. Não bastasse a doença que devorava o pobre por dentro. Mãos no bolso, espetou o dedo no alfinete. A irmã tentava ajustar a roupa para o mais novo, a pressa em receber a matriarca bagunçou o dia. Andou na direção do galpão de ferramentas. A orelha gelada apitou o tímpano. O doutor já disse que não se tratava da mesma doença. Começava assim, com um apito, depois umas dores e então os desmaios. Já era esperado. Apertou os olhos para focar no brilho vindo da porta aberta. O lugar todo estava pela metade, a pá cortada ao meio. O pequeno trator com óleo jorrando. Um fio grosso de cabelo dourado passou pelo cigarro contando a mentira ao meio. Foi acelerando o passo, ensaiou uma corrida. Chutou uma casca metálica malcheirosa do tamanho de um garrote. A luz entrou e revelou a criatura: metade, nariz e sobrancelha da família, metade panapaná e algum bicho com garras muito afiadas.
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CRISALIDA. 26.08.2020
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