Claudio entregava comida para gente que não era cliente. Usava uma bicicleta alugada para recolher as encomendas de restaurantes que não o contratavam. Acidentou-se. A pontuação baixou. Ele encostou. – Sua vez de jogar, menino. – Seu Nelson… – Joga, depois conversa. – Quando tempo o senhor vem a essa praça? – Vinte anos… Trinta e cinco. Lembro de você pequenininho aqui, sabia? Depois começou a fumar e andar com o Felipe do “Mondrian Residencial”. Na minha época era rua doze, casa dez. Ladeira Santo Agostinho… – Já saquei… toma aí, vai. – E aí? – E aí, o quê? – Tá olhando pra ela, não vai usar as palavras? – Qual é, seu Nelson? – Seguinte. Vou te ajudar. Vai lá e fala pra ela que você tá me ajudando. Que eu to passando por um momento difícil depois que a Gilda morreu. Você tá sendo esses netos de aluguel. A moça com a idade equivalente a de Claudio, passou por eles. Mexeu nos cabelos e deu um boa-tarde meloso para o velho. Para o mais jovem, só uma olhada de esguelha. O entregador deu de ombros. – O senhor, viu? Ela ia passar do outro lado da rua. Mas veio aqui só pra cutucar. E dona Gilda, merece mais respeito. Não acha, não? – Cale sua boca. Aquela mulher era um nó, não desatava nunca. Custou a morrer. Me traiu a vida toda e eu, idiota, trabalhando duro para pagar viagens e bobagens. – Eu achava que velho era tudo bonzinho. Não tinha reparado que o senhor é falastrão boca suja. Parece vilão de desenho animado. – Não nasci velho não, sabia? Gente pode fazer sacanagem em qualquer idade. Só não pego uma novinha dessas porque me entope uma veia e nunca mais olho pra essa sua cara cheia de espinha. Joga logo, moleque. – O que eu digo pra ela? – Diga apenas o essencial. Mulher já sabe o que quer, não adianta enrolar. – Me ensina então, como é? – Claro, depois que você jogar essa merda dessa manga pra mim. Antes que meus filhos vejam. Minha glicose deve tá nas alturas. – Ainda vão nos pegar roubando. O senhor vai ver.
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SUA VEZ. 11.03.2020
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