O caseiro deixou tudo organizado. Recebeu os donos do sítio na companhia de uns amigos. – Então, tá tudo certo, Messias. Pode deixar com a gente. – Certo, seu Mauro. Té domingo. Despediu-se sem resposta. Baixou a mão e saiu pelo portão menor. – Maurinho, onde ele disse que era a tomada? – Quem vai guardar isso aqui…? A mesa logo estava tomada de frutas pela metade. Os quartos uma coisa só: cama, mochilas, roupas e casais trocavam de posição. – Marluce, aquilo lá tá um pandemônio, daqui dá pra ouvir o barulho. – Messias, se o pai dele pega, nós tamo no sal também. Cuidado. Na casa: – Oi, você está sem lugar também, não está? Qual seu nome? – Miguel. Acertou. E você? – Odeio barulho, e o Gustavo tá exagerando na festa. – Seu nome? – Gente, desculpa. Ariel. – E você canta como a sereia? – Essa foi a pior cantada que eu já ouvi, não dá mole pro Miguel, Ari. Ele é poeta e maconheiro. – Para, Gustavo. Eu não sou poeta, só leio. – E ela canta mesmo, tá? A cozinha se encheu de gente. O repertório passou de Whitney à Areta. A branca com garganta negra. – E ainda tem um nome sem sexo… – Ela é tipo um substantivo comum de dois gêneros. – Miguel, tá apaixonado. Outro convidado mostrou algum talento na sala e todos agradeceram pela sessão na cozinha. – Você canta como um passarinho. – Não fala besteira. – Sério. Não gostou? – É um bom elogio, mas o canto do pássaro é um mistério. – E por que você acha isso, quero saber. Foram interrompidos por um rapaz que precisava usar a pia. – Bonito cabelo, Ariel. – Obrigada. Desculpe, Miguel… falávamos… – Você e os pássaros… – Sim. Você já ouviu o canto do sabiá? Bem-te-vi? … – Acho que nunca vi um passarinho cantar na real, só ouvi por aí, de longe. – Miguel, o canto de um pássaro é pura sorte aos ouvidos. É prazeroso, mas não é para nós. Eles estão conversando entre si. Pedindo. Negociando espaços. – São como os poetas… – Como assim? – Ah! Você sabe quem escreveu, mas a mensagem está em algum lugar entre as tantas leituras do mesmo texto. Por isso eu preciso pedir… – Pois… peça… o que é. – Ariel, eu gostaria que você cantasse mais uma vez. Na sala, o truque com isqueiro deu errado. O tapete pegou fogo. Voltaram para pegar mais água. O canto foi interrompido. Do outro lado da rua, um pouco mais para a esquina. O portão de madeira – amarrado com arame -, fechou pela segunda vez. – Que confusão era aquela, Messias? – O, Marluce, sei não. Gente rica é que nem passarinho, as palavras são bonita. Mas pra gente não significam nada.
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O CANTO DO PASSARO. 12.03.2020
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