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070. DRACULA. 10.03.2020 070

O tempo é precioso, todo mundo sabe. O que foi, não volta mais. É difícil manter, aprisionar o estado atual das coisas, dos objetos, do corpo de Marina. Vinte anos que não ouvia esse nome, mas ele foi dito mais uma vez.  – Fernando está na cidade. – Quem? – Fernando Pimentel, Marina… afê, que olho lindo que ele tem, azul feito o mar.  – …  – Que foi?  – Nada.  A década de noventa foi a derrocada da moral. A música, a dança, a mídia passavam por uma transformação sensual. Marina e Fernando estavam em todas as capas: O casal remelexo. Da pequena cidade de Cabiri, para o mundo. Fomos felizes, Fernando. Fomos, Marina.  – Boa tarde, dona Marina está? – Ela não quer assunto com você não, cabra. Pega teu rumo… – Adauto, eu não tenho nada que esconder de ninguém não. Entra, Fernando.  A terra quando seca, deixa a veia exposta, drenada. As marcas do abandono desenhavam as expressões da antiga paixão. Os seios tímidos, omitidos. Na boca, o sulco deixado pela saudade. Ela com certeza fora beijada muitas vezes, mas não como deveria.  – Tá vendo aí, quanto menino? – Tudo seu?  – É nada, aqui em Cabiri os meninos se mistura tudo. Quando a gente chama pra comer, entra até menino que não é nosso… Tá bonito, arrumado. Quer café? – Quero, por favor. Fernando olhava sem demora. A cada ida, captava uma memória. A cabeça não parava de mexer e os olhos pinçarem detalhes, como as coxas ainda firmes.  – Você está precisando de alguma ajuda? – Tô, quer lavar uma louça? To cheia de louça pra lavar.  Silêncio. O assunto era óbvio, mas nenhum dos dois gostaria de começar a falar sobre o que aconteceu.  – Eu me curei da bebida. Você acredita que até em psicólogo Lisandra me leva? Estou indo bem.  – Vem aqui um instantinho.  Os dois saíram com a pressa de quem vai perder um ônibus. Logo após o córrego, em frente a casa da nordestina, estava o mar.  – Marina? – Só olha, observa o horizonte. Veja o movimento dessas ondas.  – …  – Reparô? – Sim.  Um dia nós fomos aquela onda que acabou de quebrar. Toda a energia do mar foi concentrada naquele pequeno instante. As correntes vieram lá de longe. O vento, o barranco, tá tudo pronto para o grande momento. E não dura nada, espia…  – Me perdoe, Marina…  – Você já foi perdoado há muitos anos. Só não quero que o Fernando de hoje acabe com o meu Fernando de vinte anos atrás. Se você me tirar isso, eu morro.  Mais nenhuma palavra foi dita. O calor levantou as memórias, a poeira seca asfixiou a musa do verão de noventa e nove. O homem, muito longe no horizonte, acenava para o fantasma.  – Eu disse para nunca mais voltar…  – Mãe, tá falando com quem aí? – Oi, meu filho… tô só tomando uma fresca, sente aqui, já terminou a aula?  – Já, e olha o desenho que uma aluna fez de mim.  – Com os olhos vermelhos, Fê?  – Não tinha lápis azul. Ela coloriu com a segunda cor que mais gosta. Daí eu falei pra ela que estava lindo, que vermelho era a cor do amor. Fique igual um vampiro, né? Eu sou o conde Drácula.