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068. SORORIDARIEDADE. 08.03.2020 068

Quando um escritor mata um personagem, ele está protegido pela ficção. Coisas, que não existem, acontecem com pessoas que, também, não são reais. Mas o que faz daquela história uma história válida? Por que sentimos tanto a morte de um elemento dentro de outro. Tomando emprestado a caneta-tinteiro, me atrevo a entrar na pele de uma mulher para sentir como é viver sob outro cromossoma. Veja, a cadeia genética é algo esplendoroso. Pelo pouco que sei sobre ela, nota-se que é uma engenharia magnífica. E da máquina orgânica mulher, brota a magia que se atreve à ficção. É quase como a gratuidade da arte: não tem explicação, cada um senti uma coisa diferente, mas está lá o milagre da vida.  O masculino falhou, podemos dizer que sim. Afinal, foi uma escolha. Ao invés de pegar a esquerda, o homem vira à direita quando entra nos supermercados. E esbarrou com o cromossoma Y. Pagou um preço caro, eu imagino. Que delícia, que benesse, que mimo insubstituível poder trazer à vida um semelhante. Na face da criança a mulher se multiplica. De tão bondosa, multiplica também o pai, os avós… Os saltos nas gerações chacoalham a herança genética. A pele rosada carregará o legado da família. A incrível história dos homens que só conseguem vir da mãe.  Seu eu fosse mulher por um dia, tocaria meus seios, beijar-me-ia toda. Até mesóclise usei. Mulher deixa o homem doido mesmo. Seja mãe, irmã, tia, empregada, a mulher do busão. Todas. Absolutamente, todas carregam a paz que o homem não tem. As mulheres cujo ventre secam não pode sentir-se menos mulher. A mulher cujos seios lhe faltam, não pode sentir-se menos feminina. Não. As mulheres vivem umas para as outras. Elas são uma coisa só, em toda sua diversidade. Falam do mesmo lugar. Uma graça que os homens ainda estão aprendendo a mimetizar. Mulheres, mesmo as mais ruins, são imbatíveis. Ásperas e perdoáveis. Se você não conseguiu perdoar uma mulher ainda, talvez seja por tamanha falta de compreensão do que seria a delícia e a dor de ser o que elas são… e nós, homens, não.  Tanta coisa ainda por vir. Acreditem, lutem e contem com a mulher que nasce a cada dia dentro de mim. Seja para aprender, seja para crescer. Só vocês podem dar à luz. Só em vocês vejo direção. Obrigado por tanto amor que nem eu, nem ninguém merece, mas é como a arte, bela e livre.