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069. 155. 09.03.2020 069

O cheiro do perfume das datas especiais. O barulho da arrumação. Os dois felizes e cantarolando no abre e fecha de gavetas e portas no quarto do casal. Uma noite perfeita.  – Mãe. A Cátia vem tomar conta de mim?  Não ouviu a resposta. Pulou no sofá com a bacia de pipoca na mão e o controle remoto na outra. Uma chuva branca na sala de Tevê.  – Lucas, essa pipoca entre as almofadas do sofá chama barata.  – Shirley, meu amor, vem dá o nó na gravata? – Seu Mário tá amarradão com esse jantar, né, mãe?  – Né…  – Esse vestido deixou a sua pinta ainda mais bonita.  – Obrigada.  A mãe fez uma careta e sumiu em passo acelerado pelo corredor. O barulho do sapato elevou o volume.  – Abaixo isso, Lucas, parece surdo.  – Tá bom, Carlinha. Tá bom.  – Agora tá muito baixo, eu quero saber o que vai acontecer. Guarda minha pipoca, esfomeado.  Os pais saíram pela garagem. Na sala, a sombra das duas crianças…  – Eu já sou adolescente, eu mando hoje.  – Chata. Não vou ver Titanic de novo. Já é a terceira vez. … Na sala, a sombra de uma criança, e sua irmã adolescente, recortaram a luz forte vinda do televisor. Abandonaram alguns filmes pela metade. Discutiram sobre Jack caber ou não ao lado de Rose. O barulho da campainha derrubou mais pipoca no chão. Carla, que não assumiu o susto, pediu que o irmão fosse à frente. – Eu não vou. E se forem os bandidos? – Que bandido, criança, parece até que marcou de saquear a casa com eles.  – Viu? São eles.  – Não é nada, só vai lá ver.  – Carlinha, e se forem alienígenas. Eu tenho medo de ser “abizubido”.  – Jura? Pára de manha. Eu vou então. Só vamos ver se vai tocar mais uma… – Viu. Pode ir Os lençóis têm a mágica capacidade de proteger crianças de almas penadas à noite. Almofadas, servem de escudo para pré-adolescentes às vezes. – Quem taí?- Como “quem taí”? Somos nós, abre.  – Lucas… Lucas, corre aqui.  – Eita! Carlinha. Abre logo. Não tá vendo? O filme estava no mudo. O som dos passos invadia a sala. A lentidão para alcançar o sofá incomodava aos dois irmãos incrédulos.  – Vocês estão parados aí por quê? – Vai buscar um copo de água para sua mãe, meu filho. Tá na hora do remédio dela.  Carla desligou a tevê, pegou um pufe e chamou o irmão para observar junto. – Isso é alguma brincadeira, pai? – É fantasia, ó, dá pra ver a cola.  – Aí. – Pára com isso. Vocês estão bem?  A garota vasculhava algo nos bolsos. Celular.  – Olha, vocês estão velhos. Velhos, parecem o vovô e a vovó.  – São eles mesmo, Carlinha. Olha a pinta da mãe.  – Se são vocês mesmo… Digam algo que só a gente saberia. – Você ainda mija na cama?  – Esquece. Vem, Lucas. Nem um pio. O casal sentado no sofá acompanhava com a cabeça o movimento dos dois até a cozinha. A irmã mais velha arrastava o irmão que não largava a bacia de pipoca.  – Carlinha, eu acho que a gente ficou tempo demais vendo filmes. Eles voltaram velhinhos. – Não piora…  Voltaram para a sala deixando outro rastro de pipoca pelo corredor.  – Toma, mãe, sua água.  A senhora aceitou o copo como quem duvida de uma mentira. Carla olhou mais uma vez para o pai. Marcos lançou um olhar inquisitivo para Lucas, que por sua vez catava os grãos no fundo da bacia. A mãe, impaciente, reiniciou:  – Crianças… eu suponho que vocês ficam muito tempo na frente da tevê.  Lucas se exaltou. Deu um pulo. Os milhos que não estouraram, rolavam pelo chão feito bolas de gude. Cutucou a irmã e exclamou convicto:  – Eu não disse?