Palavras são caras. Custa-me dedicar a prosódia ao objeto. Veja como é árduo deitar o cinturão de ferramentas sobre a mesa, amolar substantivos para que tenham o peso do objeto direto. “Mandar a letra”, nem pensar. É por aqui e por ali. Contornando palavras. Chegar perto e saber o que podem oferecer. Para abrir portas em uma sentença, é necessário a exuberância de Gilgamesh. Decifrar o Oráculo de Delfos e, na saída, mais uma vez, responder ao enigma da Esfinge. O ponto de cisão é imperativo; ou tudo, ou nada. E ainda assim, com todas as palavras em linha, vogais abertas, palato mole – disposto ao diálogo, regências coordenadas pelo maestro Bechara… de nada me adianta o melindre. Descerei do panteão semântico, a que obrigo-me a escalada todos os meus sísifos dias, para dizer por meio da linguagem das ruas. Eis a mensagem: Ó, homem difícil. Selvagem que rasteja sob o verniz trincado da burguesia. Dispa-se desse acrílico transluzente que te denuncia. Renuncia, tu, o título de cidadão, de nobre. Esse que o abraça, a mulher que te sorri, não te querem bem. Fode-te desde sua chegada, imbecil. Afasta-te. Embebedam-lhe o juízo e derramam sobre ti a cólera da indiferença, da desigualdade. Se te coças o cu, convocando-o a mover as pernas por avenidas, que ao menos o faça de máscara, a de pano, tripla camada. Não a que usaste desde que apareceste em tua própria casa. Posto que me obrigas a lançar mão de adjetivos, atolando minhas intenções neste pântano rudimentar, rogo-lhe a praga, inconsequente: que te tornes o jovem mais inteligente do mundo no próximo gole, mas que teus lábios não lhe toquem os dentes porque todo o ar aos pulmões faltará. Tu mereces tudo e nada num único estalo. Castigo pior não há.
185
185.
SOFISTAS DO LEBLON. 03.07.2020
185