186
186. ATAVISMOS ELEFANTE. 04.07.2020 186

O objeto livro é papel. Tinta, verniz, relevo, mas, sobretudo, papel. Um excelente trabalho manual para um artefato. Quando alguém diz “você precisa ler este livro” ou “você precisa assistir àquela série”, algo bem maior começa a andar. Alguém quer emprestar a você um sentido, um caminho para a mata fechada, secreta. Você termina um livro, um livro não termina com você. Uma série, filme, curta-metragem, quadrinho, tatuagem, peça, música, dança são invencíveis em contar a história. Ao terminar de ler isto aqui, abra os braços e gire em torno do seu próprio eixo, verá o quanto somos limitados fisicamente. Não alcançamos nada sem ajuda de artifício mecânico ou eletrônico – ou coisa orgânica qualquer, um cachorro adestrado faria o trabalho. Mas o homem, em estado de finitude, precisa de mais do que sua própria realidade limitadora. Necessitamos de pensamentos obesos, robustos e graciosos. Cujo marfim se arrancado suga-nos a vitalidade. Uma pisada e tudo está arruinado. Pouco depois que tiramos os joelhos e as palmas do chão, somos alçados ao lombo do gigante. Sem demora, capazes de atravessar o museu de cristais sem qualquer ranhura. É como assistir à angústia de James Lord e Giacometti, mas saber quando protelar o inadiável. Assim como a deusa Atena, os paquidermes rompem a subjetividade em manadas, permanecendo sempre um. Pequeno, distraído e pateta. Enquanto engatinhamos, ele aprende como nos resgatar, bebendo de nossa própria água. Até que os demais percebam que deixaram aquele para trás e voltam para buscá-lo. É aí que devemos estar. Entre elefantes grandes que percebem erros e refazem caminhos. Ninguém deveria ser deixado do outro lado do lago. Somos um só, responsáveis, até a manada chegar.