099
099. SINAL. 08.04.2020 099

Montanhas imponentes escondiam a cidade que havia do outro lado. O vento do mar entrava por um estreito e formava a camada gelada nas fissuras que sufocavam os visitantes. Ali, Tomás e Gisele chegaram de carro para uma noite no chalé. Guardaram as malas e montaram um jantar improvisado na grama da área externa.  – Eu disse que daria para ver as estrelas.  – Tô sentindo falta de ar, Tom.  – É a altitude, faz o 4-7-8 que passa. Devagar.   Antes de continuar, Gisele olhou para o amigo. Apertou os olhos e beijou-o na boca. – Gi, nós somos amigos… – E por que eu faria isso com um inimigo?  Ele abraçou-a e os dois fizeram amor sob a luz de uma nova paixão.  – Foi muito mais do que eu esperava…  – Por que você me atacou, Gi? – Foi você quem me “atacou” primeiro, no carro.  – Como assim? – Lembra que olhamos para o painel e as horas marcavam os números idênticos? – Sim. – Lembra que você e eu dissemos a mesma palavra, ao mesmo tempo? – “Serendipidade” – Isso… – Aquilo para você foi um sinal? – Claro, “isso” foi a confirmação.  Ela apontou para cima. O que havia começado de forma tímida, com vergonha do próprio fenômeno, tomou ritmo e velocidade. Uma chuva de meteoros riscou a envergadura do infinito em estrelas cadentes. Aquele céu pertencia a duas pessoas, apenas. Interferências de sinal ficaram para depois da fenda por onde atravessaram e tudo começou. Ouviram buzinas, viram os faróis. O restante dos amigos havia se atrasado. Alguma coisa relacionada à falta de ar que o lugar proporciona. – Contamos? – Nem precisa, energia não mente.