Em uma cidade do interior, não me recordo o nome na ocasião, eu passeava pela rua à espera de um amigo. Encontrei um senhor sentado na calçada. – Ansioso, meu amigo? – Não gosto de esperar. Me ofereceu uma laranja ainda não descascada. – Não, obrigado. Percebi que ali era a banca onde ele vendia frutas do seu quintal. Pensando em surpreender meu amigo com um agrado, estavam bem bonitas, perguntei: – Quanto é o quilo? – Não sei… – Mas está escrito “Frutas Frescas”. – Claro, é uma placa. Não estão à venda. Pegue uma, vai. Meu reflexo foi rápido, mas não o suficiente. – Tem que melhorar. – Eu não sou muito ágil. – Percebi. Precisa quebrar essa casca. Eu tenho uma galinha aqui que bota ovo oco. Ninguém consegue quebrar. Quando quebra, é maciço. Sua cabeça é que nem esse ovo. Viu uma placa e julgou que eu estava vendendo alguma coisa. Sabe que seu amigo vem, e mesmo assim não tem paciência de esperar. Por alguma razão, que eu não saberia explicar agora, acreditei no velho das laranjas. Ele destroçava os gomos com a mesma voracidade em que me descascava. Resistente, retruquei: – O senhor não me conhece. Mas parece ser gente boa. – Cale sua boca, rapaz. Eu sou pernicioso. Ponho frutas aqui para ver se consigo pegar umas dessas mocinhas novas que passam. Um dia, quase consegui entrar com uma galega, mas ela não gostava de carambolas. Estou tentando com laranjas. Não vai mesmo querer? – Não. – Não sabe o que está perdendo. As melhores laranjas do bairro são suas se quiser, e você nega. Por que veio mesmo? – Meu amigo… – Não importa… Você sabia que uma balança não mede o peso das laranjas? – Ah, não? – Você parece desinteressado, mas vou dizer: os corpos são medidos pela massa, a balança usa um cálculo e converte em quilos aproximados. Você me parece ser bom em outras coisas, não em matemática. Você está em que ano? Ouvimos o barulho do portão. Meu amigo, que ia saindo, pediu mais cinco minutos e voltou para dentro. – Esse aí é esquecido de tudo. O homem fez um gesto e aproximou os dedos para perto da boca. Como nós temos pouco tempo, vou dizer logo, rapaz. A nossa concepção de natureza é apenas uma ideia aproximada do que existe fora de nós. Se você puder, siga com menos certezas e convicções possíveis… – Ou o quê? Vou acabar numa calçada chupando laranjas e esperando uma virgem passar? – Você não teria essa sorte. Mas você pode terminar com uma laranja na mão e não saber se dentro há suco ou se é tudo oco. Feito o ovo da minha galinha. Eu só estava tentando dizer que gostei de você. Queria te dar algo. Sobre o amigo pelo qual eu espera, não somos mais amigos. O motivo não me recordo. Aprendi algumas coisas, retornando algumas vezes àquela calçada. Um dia, o velho, que na ocasião tentava com jabuticabas, disse-me: – Rapaz, você já pensou que a vida te trouxe aqui só para que eu não me sentisse solitário? – Foi exatamente por isso que nos encontramos… Pode ter certeza, velho. Naquele dia tivemos uma baita de uma dor de barriga.
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OBJETOS E CORPOS. 07.04.2020
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