Na cidade de grandes avenidas, poucas árvores e pequenos grupos de amigos, Anne flutuava procurando encaixar-se. Trocou de espaços, namorados, de maquiagem. Não era bonita, nem feia. Dependia do observador. Quando ouviu que tinha uma beleza pitoresca atendeu ao chamado para juntar-se a um novo grupo, este, adorava convocar os membros e praticar o que eles chamavam de noite de jogos. – Estamos com um a menos, você vem? – Cartas? – É. Pra gente se desconectar um pouco. O casarão em plena avenida havia resistido à especulação imobiliária, contrastava com os arranha-céus. O verde em volta clamava por representatividade contra a opressão do concreto. As flores vibravam em cores hipnóticas. Anne podia sentir o perfume ao passar pela porta, que se abria em duas. As maçanetas no estilo colonial como tinha que ser. – Impressionante. Da entrada, podia-se ver a grande escada para ambos os lados. À direita, a sala de jogos. Rodada vai, rodada vem, Anne comprou uma carta. Espantou-se. A carta estava em branco: sem naipes, números ou letras. Mesmo grafismo na frente e branca no verso. Por algum motivo manteve a carta consigo, mas perguntou: – Sabe… uma vez eu jogava esse mesmo jogo e tirei uma carta totalmente branca, curioso… o que será que significa? Um homem bem vestido – mesmo sentado, mostrava-se alto e sério -, o dono da casa, das bebidas, e das pessoas ali, respondeu com certa diligência e boa vontade: – Isso é uma carta reserva. Você desenha nela quando perde qualquer outra do baralho. Anne esticou os músculos do rosto, projetou o lábio inferior e continuou jogando. Escorregou a carta para dentro da manga da jaqueta e não demorou a deixar o palacete. É isso que eu sou. Uma carta em branco… pensou enquanto andava pela rua. O objeto do furto passeava entre os dedos. Pequenas gotas machucavam o papel. De uma das inúmeras janelas, pelo buraco da grade de proteção, uma senhora deixou um pequeno vaso cair aos pés de Anne. – Que perigo, está tudo bem minha filha? Sem ouvir uma só palavra, e como se alguma ficha tivesse caído. Deu um peteleco na quina da carta. Pegou o caminho de volta para o casarão. – Não vou mais fugir. Ao se aproximar, não havia casa alguma. No lugar, um prédio vertiginoso em vidro de cima a baixo. Aproximou-se e percebeu os mesmos ornamentos. A porta também se abriu em duas, mas deslizando de forma automática. A figura do homem alto e bem vestido emergiu da escuridão, seu hálito tinha o perfume das rosas. – Veio devolver-me algo, estou certo?
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ENTRE. 09.04.2020
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