O poeta João da Silva subia a colina quando precisava se aproximar de seu espírito animal. Tem bicho que só sai confrontado pelo maior medo de todos. O grande mistério, que assola a todos os seres que rastejam, andam ou sentam-se à beira de um penhasco. Punha-se perto da borda. Balançava as pernas e desafiava o destino. A pessoa com o maior medo de altura estava ali. Tentando exorcizar qualquer coisa que tivesse que sair. Subiu moço, desceu melancólico. Decadente. A vida inteira observando foi curta. Amor, tolerância, desambição, perdão, curiosidade pela natureza, ternura universal. Recriação permanente do passado. Nada tem importância quando vive, tudo faz sentido quando se prepara para a morte. João desafiou muitas vezes a sorte. Finalmente caiu. Um homem velho, única testemunha da desgraça alheia, parou e observou. – Não devia ter exigido de você mesmo mais do que estava acostumado a dar. Olhou para cima. Olhou para o corpo. Olho frente. Balançou a cabeça e saiu.
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SENTADO A BEIRA DA COLINA. 31.01.2020
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