Por alguma razão, a família não se separava desde a data especial. A matriarca já deveria estar em sua casa. Os tios, a cada manhã, inventavam uma história para não partir. E os anfitriões curtiam todos juntos à mesa. Três vezes ao dia. Aos poucos, a mesa esvaziava. As vozes se distanciaram. Todos os quartos se ocuparam. Naquela mesma noite, o netinho passou para dar boa noite. Primeiro foi nos tios, dois quartos, dois casais. Trocaram sorrisos, palavras e as luzes foram se apagando, uma a uma. Até chegar no final do corredor. Vó Giu aguardava a conversa mansinha, que o pequeno Tibério vinha trazendo. – Oi, Vó Giu. Posso entrar? – Oi, meu filho. Mas é claro. Levantou uma parte do lençol. Quer que eu leia uma história para você? – Não. Eu não gosto de ler, vó Giu. – Madonna mia, um menino de oito anos já sabe ler, non? – Eu sei ler, mas toda vez que termino um livro, um adulto me pergunta sobre o que era. Eu fico nervoso e esqueço. O pequeno Tibe, como todos os chamavam, se ajeitou no cantinho da cama e passou a mão sobre a barriga da sua vó. – Vozinha, por que eu tenho o nome de velho? A senhora olhou para o teto. O mesmo gesto de alguém que ouviu um barulho no andar de cima. Concluiu uma resposta para o pequeno. – Tibério é um nome antigo na nossa família. Você sabe onde fica a Itália, non sabe? – Sei. Meu pai tem um mapa na sala, do lado da foto do vovô. – Pois, é de lá que a nossa família vem. – Então… eu sou italiano também, vó Giu? – Sim… Não. A mulher soltou um riso baixinho. Tirou o cabelo da testa do menino e disse que ele era um italianinho brasileiro. – Vó, eu acho que eu quero uma história. – Vamos fazer uma troca então. Que tal? – Tá. A senhora gosta de carrinho? A barriga saltou e o riso assustou o menino. – Eu leio hoje, mas amanhã você lê sozinho. E toda vez que alguém perguntar sobre o que era o livro e você se esquecer, você vai inventar a melhor história que tiver aí dentro. Cutucou duas vezes a cabeça do neto com o dedo indicador. – Promete, Tibe? – Prometo, mas eu não sei inventar, não, vó Giu. – Você sabe, você sabe… Você teve a quem puxar. O menino limpou a aguinha quentinha que caia em sua testa. A velha senhora, que anos atrás saiu fugida para se casar no Brasil, com a promessa de uma nova vida, se lembrou de um dia do passado. Um barco partia. Deixando para trás duas famílias inimigas. – Tibério, e se não der certo? Os jornais andam dizendo que é uma viagem sem volta. – Giuliana… se, um dia, alguém nos perguntar como foi nossa vida no Brasil… inventamos a melhor história que eles puderem ouvir. No criado mudo, um par de velhinhos observavam estáticos o neto limpar o rosto da vozinha. – Vovó Giu, chora não. Olha que engraçado. Um peteleco no bibelô fez as cabecinhas balançarem. Os dois cantarolaram uma música de um grupo antigo, que o avô Tibério adorava: “Porque você nãaaao vem ficar comigo…”.
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BIBELO. 30.01.2020
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