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032. JANEIRO. 01.02.2020 032

Ao início de mais um ano, o caos se ajustou. Em algum lugar no infinito, ou além, ou em lugar oculto, o contador foi ‘resetado’. Na primeira hora do novo ano, no primeiro segundo, a morte ainda dormia. Não descansava, como a quem ela mesma havia roubado o hábito, por inveja. Mas dormia porque apenas a visita final – ocaso – já não satisfazia.  A solidão do fim. Isolada em seu poder de ceifar em tarefa solitária. Como o escritor, trabalha recluso e, ao fim, é revelado, exposto, questionado. Escrever é matar o tempo, a vontade. É saciar o espírito terrorista, surreal. É a graça.  A instituição Tempo desafiou. O não dito deixou claro que algo se falava. O Tempo e a Morte travariam outra batalha. O cenário da guerra seria o coração do homem, ofendido por sua finitude. Lutou com a subjetividade que emancipa. Se multiplicou em outros. Venceu, se fez imortal. Uma ofensa a tudo que existe, entre o nada e o fim do nada, à própria morte em pessoa.  – Vou cair com o firmamento. – Não sem antes negociarmos. Janeiro é o mês em que o tabuleiro se abre e as peças se espalham. Claro e escuro tomam lugar e iniciam partida. Tudo que é vivo, joga. Tudo que já foi, resiste In Memoriam. Quando erra, a morte ainda ganha, leva o menor dos males. Vai-se o bicho, o desabrigado, o lázaro. Vai-se a borda, a margem, vai tudo, menos o vencedor.  Vencer assim não pode, diz o Tempo, ele mesmo condena. De tantos milênios em artimanhas, o tabuleiro se decora com as cortinas empoeiradas do teatro, o fedor da derrota. Movimentos previsíveis, mas sempre imprevisíveis. Prever seria heresia, mau agouro. Péssima tacada.  – Joga. Seja breve. Essa demora mata-me.   – De quanto tempo precisa? Os dois se olharam em blefe de competição, olhos não faltariam. Membros, corpos inteiros e almas.  O fim do jogo é o cenário medieval da desolação, da desonra, inglória, praga, peste, cólera. A mão lançou a roda. Girou mais uma vez. Cumprindo os ensejos de encerramento e reabertura, vem fevereiro. Dançando com os pés descalços sobre cacos afiados. Fazendo galhofa, levando os vencidos e empalhados. Passou o vermelho em lábio pálido. Alguma coisa na alegria perdoa os pecados.  Vem, fevereiro, aquece, ri de todos. Joga tudo para o alto mais uma vez e perde o respeito. Pois, nem em ti, está o desfecho. Nem em ti, está o enredo. Só estás em jogo, para render um março.