051
051. SAO PAULO E ASSIM. 20.02.2020 051

Deixou o passaporte cair. O café brasileiro, com saudades, pulou em sua roupa. Alça da mala arrebentada. O plástico a vácuo, violado. As esteiras não foram feitas para mulheres. “Bem-vinda, Anelise. Escuta, vamos nos encontrar amanhã…” – Moça, se puder abaixar o volume, obrigado.  São Paulo me odeia. O sinal era fraco.  – Mon Dieu, não troquei o chip… O chip ainda era da Orange. Roaming de dados ninguém realmente sabe como se usa.  O aplicativo agora tinha uma área especial para embarque. Mas o que houve com o Brasil, está se organizando agora? Os passageiros se acotovelavam para não cair da calçada. Começou a chover.  – Vanessa? – Renato? – Mister Jeffrey? Não. Não. Não. Horas no voo e a única coisa que os seus pés pediam era.. – Alívio da gravidade, preciso botar as pernas pra cima, amiga… – Alô? Alô? Anelise… Ih! Amor, acho que ela foi roubada. – É isso mermo tia. Dá tchauzinho pra sua amiga. Robson. 3E28. Robson. 3E28.  – A senhora é a dona Anelise.  – Sim. Graças a Deus! Mon Dieu. Merci. Robson? – Eu mesmo, entra aí…  O alívio ao subir o vidro do carro e sentir-se segura, ao menos por um instante. Ensopada, mas segura.    – A senhora desculpa o barulho com o bagageiro. Tá tudo bem?  – Non. Quer dizer, tá! Vai ficar. Só preciso de outro celular, s’il vous plai.  – Eu tenho para vender, se te interessar. A roupa não combinava com o celular roxo, nem os dedos deslizavam pela tela trincada. – Mas é uma emergência, não é mesmo, não vou questionar. Muito obrigada. Chip? Tem?  – Claro, quinze reais.  Sem perguntas, Anelise. Sem perguntas.  “Bom dia, Ane. Você tem uma hora. Estamos indo até você”. O quarto, arranjado às pressas pela confusa recepcionista, permitia que a luz trouxesse o novo dia.  – Bom dia, amiga.  – Bom dia, Mônica. Como vai o Felipe?  – Aquele ali, você diz? – Oi, amigos. Vocês todos… vieram?  Os outros hóspedes não se incomodaram de ceder cadeiras vazias. A mesa para dois, havia se multiplicado. Oito pessoas conversavam e gesticulavam com a espontaneidade que a intimidade permitia.  – Ane, é assim mesmo. São Paulo tem essa mania de receber com raios e trovões quem foge daqui. – Mas eu não fujo mais. Vim para ficar.  As outras pessoas no salão, dessa vez, se incomodaram com a algazarra e o falatório exagerado. Três rapazes, mais fortes, erguiam a amiga franzina para o alto.   – Anelise, as cidades são assim: você chega, sofre aqui, ali… gradualmente, a cidade se abre desinibida. Porque é feita de pessoas. E só com o tempo mesmo. Olho no olho, do jeito deles. Vai dar tudo certo. Coragem.  – É… vai sim, vai dar tudo certo.  Uma pomba desceu à janela, do lado de fora da cafeteria do hotel. Ciscou uma migalha e voou para fora dali. De cima, via o prédio espelhar a chegada do mau tempo. Subiu até o topo da igreja, na parte de cima da cidade. O vento forte surrupiou o pedaço de broa do bico do bicho. Golpe sorrateiro.  O céu fechou-se mais uma vez. As nuvens e os raios vieram bater ponto. Escureceram a manhã. Outro avião estava com previsão de pouso, minutos após aquele café na cidade, que não era boa, nem nada. Era só uma cidade. Só mais um portão. Só mais um rapaz que faria da metrópole, pelo menos para Anelise, um pouco mais amigável. São Paulo é assim…