– E então? – “E então”, o quê? – O que você acha? – Bom… O museu recebia a exposição famosa. A mesma que havia ocupado galerias europeias. Novos funcionários foram contratados, incluindo Jussara, a faxineira. – Jurema, você vai cuidar dos corredores. Quero tudo limpo. Tão brilhante quanto essas mentes aqui expostas. – É “Jussara”, senhora… – Você me ouviu. Os corredores, da extensa galeria do andar de cima, assobiavam com o sopro nas janelas. As luzes permaneceriam desligadas até a abertura das portas. – Como vou limpar sem enxergar nada. Que bonito… O lugar tinha personalidade. Os papéis de parede, candelabros, e o próprio passadiço, não gostavam de companhia. Preferiram expelir a faxineira pela passagem que interligava as salas. Um segredo revelado ao esbarrar com o esfregão em um ponto específico da linha do rodapé em mármore. – “… Eles não sabem disso, é melhor não iluminar muito as peças.” – “Com os empregados, tudo certo?” – “Claro, ninguém vai sentir a ausência de uns desagalhados…” Jussara escorregou com o susto, ao ouvir a bengala cravar o chão perto do tabique onde, do outro lado, o diálogo revelava-se. Filetes de claridade mostravam onde pisar. Se aproximou e encaixou os olhos para ver através da parede. Do lado de fora, dois magnatas haviam recebido a licença de visitar a exposição uma hora antes da abertura. Ouvia: – “E então?” – “‘E então’, o quê?” … – Não terminei a faxina, dona Agnes vai me matar. – Adivinhou, Jacinta. – Santo Deus… que susto… Senhora, é Jus-sa-ra. A mulher, que não se podia ver o rosto, puxou o indicador, depois o anelar e, por fim, foi-se o polegar da luva de cetim. Dona Agnes se tornava mais iluminada à medida que os passos tornavam-se audíveis. Atrás dela, vinha Boris, com uma lamparina. Era o homem que Jussara havia encontrado ao apresentar-se para o trabalho. – Ele sujará as mãos por mim… como disse que se chamava? – … – Não importa. Boris, me passe a lamparina. Os dois magnatas tentavam fazer a obra de arte falar, ao questionarem o sangue escorrendo dos olhos enigmáticos da peça mais famosa da exposição. – Bravo! – Magnífico! Seguiram, sem compreender a profundidade. As camadas, daquele quadro que, no ano anterior, fora o último grito em Paris.
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O PASSADICO. 19.02.2020
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