O quarto de Juninho tinha tudo fora do lugar. O travesseiro pendurado no ventilador, peças de montar fora das caixas, os lápis espalhados pelo chão. Todos os brinquedos esperavam por uma decisão, amontoados um sobre o outro na cama. – Virgílio, vai lá ver… – Amor, eu tenho que trabalhar cedo, vai você. O garoto estava enfrentando o armário. Jogou tudo para fora, dilacerando o móvel. Expulsando as vísceras de tecido e chulé. – E agora, o quê? – Pai, eu estou no meio de uma revolução. – Marta, ele tá na França… do século dezoito. – Não grita, pai. Tô falando sério. – Tá bom. Posso ler o seu manifesto. – Mani… o quê? Olha, eu li sobre revolução hoje na escola. Eu preciso romper com o status… alguma coisa. – Quo, “status quo”. É latim. – Isso aí mesmo. O pai se esquivou do sapato. – Filho, vamos dormir. Amanhã, quando eu chegar, serei seu aliado na revolução. – Não, pai. A revolução acontece quando o desejo nasce no coração do revolucionário. É preciso se levantar, tomar uma atitude. – E você está fazendo isso agora? – Estou, eu vi na internet. “Se você quer mudar o mundo… precisa, antes, começar arrumando o seu quarto”… “a cama”. Era algo assim, o importante é a ideia. – Tudo bem. Só faz menos barulho, pode ser? Dona Consuelo, do cento e um, tem o sono leve. – Você vai sentir muito orgulho de mim, papai. Antes mesmo de o pequeno revolucionário terminar a frase, a luz no final do corredor se apagava. – E então? – Nada. – Como assim nada, Virgílio? São onze da noite. O que o Júnior estava fazendo uma hora dessas? – Ah! Sim. Crescendo… Boa noite. – Crescendo? Como assim… – Marta, você, talvez, não se lembre, mas crescer requer algumas revoluções. O Júnior só está começando. A mulher calçou as sandálias. Cruzou a trilha com cautela até a frente de batalha. Escorregou na entrada do quarto. O flanco estava descoberto. O Pai saiu correndo para acudir. Estava montada a frente de coalizão contra os inimigos. Virgílio, Marta e Junior contavam com a ajuda do batalhão dos soldados de plástico para enfrentar a revolução que duraria até às duas da manhã. *** No dia seguinte. – Inácio. Psiu! Inácio. Oh! Inácio. – Que foi véia. – Véia não, meu nome é Consuelo. Velho surdo. – Quê? – Ah! Deixa. Eu ia te falar dos Moreira… Vou falar assim mesmo: ontem à noite tava uma verdadeira confusão lá em cima. Separação, com certeza. Não me deixaram dormir. – Verdadeira revolução? – É. é. Isso mesmo: revolução. Ainda me separo de você. – Trégua, Consuelo! Trégua…
052
052.
A SEPARACAO. 21.02.2020
052