As nuvens cobriam a parte de cima da figura. Tão grande quanto o pé direito do edifício, antiga estação da cidade, ladeada por grandes ornamentos em metal. Ainda preservava os espectros agitados indo de um lugar a outro. Agora, filas extensas de cabines abriam avenidas dentro do espaço. Ao centro, em um ponto de divisão entre as seções, estava Dina. As pessoas do signo de virgem são organizadas, metódicas, mas nada sobre a megalofobia foi encontrada no horóscopo trazido por um sujeito claudicante, cujo único trabalho era parar e deixar o fardo. Analisar variações em papéis impressos. Dina sofria para concluir a jornada de trabalho, suava frio e gaguejava na sala em mogno. A aflição personificava-se numa figura de tamanho colossal. Através de um rombo aberto na página do livro, segurado pelo Grande Professor, nome da estátua de dezoito metros de altura, com o rosto virado para baixo, os olhos opacos convergiam pelo orifício, direto para algum ponto entre as sobrancelhas da nova contratada. Para conseguir abrir uma primeira página de qualquer exemplar, pelos extensos corredores da Estação, era necessário passar ainda por alguns prédios e setores, que circundavam o lugar, em alguns anos preparatórios. Todo início de ciclo, do outro ponto da cidade, os recém chegados viam, azulada no horizonte, a figura com um feixe de luz filtrado para dentro do edifício. Tudo parecia pequenino. Um arremedo de cidade em contraste com o pórtico. Boulevard Vinte e Seis de Abril, em homenagem ao holocausto de dois mil e vinte um, cortava a cidade em setores reprogramados para funcionar de forma sistematizada. A Cidade Matemática também tinha seu próprio monumento que convidava ao conhecimento. A cada ano, o aniversário da nova cidade era alterado em um grande letreiro: a forma do número cinco estava sendo alçado no lugar do último algarismo. De longe, podia-se ler “cento e vinte e quatro”, que descia enquanto o “cinco” subia. As centrais foram reorganizadas para gerenciar as áreas, o erro já fora diagnosticado há muitas décadas. Dina fazia parte do centésimo vigésimo quarto grupo. Um povo ainda em busca de outros, segundo números da cidade vizinha, muito havia desaparecido nas explosões, inundações e diásporas daquele ano. O mundo voltaria ao formato de embrião. Filósofos, historiadores, literatos, médicos, todos sobreviveram. A parte norte da Inteligência tentava descobrir o porquê. Ao final da formação crítica dos jovens cidadãos, uma lei dava direito ao púbere continuar na cidade ou sair para o exílio. E, um dia, um jovem chamado Lucius escolheu abrir os portões e sair. Ao longe ouviu-se uma sirene, a estátua da cidade havia sido implodida. Dina correu para ver o que acontecia. No caminho, a porta do Real Gabinete estava escancarada. A primeira regra, a única porta proibida.
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REAL GABINETE. 09.01.2020
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