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010. CACTACEA. 10.01.2020 010

Depois da partida do príncipe regente, a cidade próxima à costa do continente foi abandonada pela coroa. Uns parcos recursos eram estripados pela pouca liderança, compartilhada entre comerciantes sem clientela. Estavam exilados em um vale outrora muito farto, exportavam recursos pelo oceano.  Tamanho estrago se deu, inclusive, nas linhas de comunicação com a cidade. Maquinistas saíram em fuga levando tudo que podiam, inclusive as próprias composições dos trens.  Menos uma, que por entrevero deixou para trás uma excelente moradia para Mei, onde podia plantar e colher no vagão, que guardava sementes tão úteis quanto o próprio teto acima de sua cabeça. Para se ter ideia de como a pequena burguesa conseguiu cultivar sobrevivência, é preciso contar como um vagão de trem foi parar ali. Servindo de ponte entre o passado e o futuro, sustentando as muralhas do desfiladeiro no alto do cerro.  Ao bater à sua porta um viajante, ela disse: era muito luxuoso e fazia travessia do campo, onde fica sua vila, para o litoral. Mas minha família seguiu sem mim. Eu estava aqui.  O povo olhava para cima e via uma caixa de ferro se encher de verde com o tempo. Suba lá e pegue tudo o que conseguir trazer, o povo está doente.  Mei, conheceu o moço que a ensinou a descer, mas não podia abandonar sua casa, suas plantas eram tudo o que ela tinha. Ele levou o que precisava e recebeu o convite para buscar mais no futuro, ela estaria cultivando. – Como pode escolher ficar aqui, com tanta gente lá embaixo. – Eles estão doentes, não estão? O rapaz desceu a trilha, tão escorregadia quanto o musgo que comiam nas noites mais fartas. E olhando para cima a cada dez passos, sorria em agradecimento. Mei olhou para baixo e acenou, sem esperar que o jovem subisse novamente.