Daniela cresceu atendendo às expectativas da mãe: – ‘Vai crescer com dignidade e arrumar um bom marido’, se me recordo bem, filha. – Exatamente com essas palavras, mãe. Coitado daquele meu namoradinho, como era o nome dele? Riram juntas no aniversário. Na manhã seguinte, pegou as chaves do carro e voltou para sua cidade. Depois de duas horas dirigindo, deitou-se no sofá. A depressão voltou com o gatilho da memória triste enfeitada com balões e palmas. – Tô bem… – Dois dias não são duas horas minha filha. Você bebeu? – “Bibi”, só um pouco. – Eu falei com teu pai ‘só refrigerante, só refrigerante, Jairo’… Lembrou-se do hospital ao procurar um analgésico. – Doutora, Daniela, o paciente apresenta quadro de insuficiência respiratória aguda. – Vamos para a… desculpe… – Deixa que eu cuido desse caso, enfermeiro. Você está com febre. Vá para casa, Daniela. – Não posso voltar, por favor, não. – Febre, tosse, você precisa voltar e ficar em quarentena. Vamos fazer alguns exames. Como foi a festa? A doutora voltou e encarou a solidão da casa sem filhos. Longe dos pais, com as garrafas vazias, foi obrigada a levantar do sofá. O cheiro de lugar fechado escapava pelas frestas da porta. Pegou o celular, sem bateria. Tudo em volta parecia errado. – Quando tudo está fora do lugar… – É mais fácil realizar mudanças, filha. A casa ganhou um novo perfume. O fim do poço não era tão escuro, afinal. Lavou as roupas, jogou fora os excessos e retornou assim que os resultados saíram. – Eu disse que não era isso. Foi só um momento ruim. – Eu também sabia, Dani. – E por que me mandou para casa? – Primeiro, sua cara estava péssima. Poderia piorar ainda mais a situação daquele paciente. – E segundo? – E segundo… bom, eu penso que todo momento ruim precisa de um tempo para curar-se. E você parecia não estar respeitando sua dor.
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QUARENTENA. 30.03.2020
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