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090. QUARENTENA. 30.03.2020 090

Daniela cresceu atendendo às expectativas da mãe:  – ‘Vai crescer com dignidade e arrumar um bom marido’, se me recordo bem, filha. – Exatamente com essas palavras, mãe. Coitado daquele meu namoradinho, como era o nome dele?  Riram juntas no aniversário. Na manhã seguinte, pegou as chaves do carro e voltou para sua cidade. Depois de duas horas dirigindo, deitou-se no sofá. A depressão voltou com o gatilho da memória triste enfeitada com balões e palmas.  – Tô bem… – Dois dias não são duas horas minha filha. Você bebeu?  – “Bibi”, só um pouco.  – Eu falei com teu pai ‘só refrigerante, só refrigerante, Jairo’…   Lembrou-se do hospital ao procurar um analgésico.  – Doutora, Daniela, o paciente apresenta quadro de insuficiência respiratória aguda.  – Vamos para a… desculpe…  – Deixa que eu cuido desse caso, enfermeiro. Você está com febre. Vá para casa, Daniela.  – Não posso voltar, por favor, não.  – Febre, tosse, você precisa voltar e ficar em quarentena. Vamos fazer alguns exames. Como foi a festa?   A doutora voltou e encarou a solidão da casa sem filhos. Longe dos pais, com as garrafas vazias, foi obrigada a levantar do sofá. O cheiro de lugar fechado escapava pelas frestas da porta. Pegou o celular, sem bateria. Tudo em volta parecia errado.  – Quando tudo está fora do lugar…  – É mais fácil realizar mudanças, filha.  A casa ganhou um novo perfume. O fim do poço não era tão escuro, afinal. Lavou as roupas, jogou fora os excessos e retornou assim que os resultados saíram.  – Eu disse que não era isso. Foi só um momento ruim.  – Eu também sabia, Dani.  – E por que me mandou para casa? – Primeiro, sua cara estava péssima. Poderia piorar ainda mais a situação daquele paciente.  – E segundo? – E segundo… bom, eu penso que todo momento ruim precisa de um tempo para curar-se. E você parecia não estar respeitando sua dor.