Romper o ano com muitas incertezas, essa era a única afirmação concreta. Janeiro avisou, Fevereiro riu, fez festa e levou a alegria embora na chuva. Março caiu como uma árvore atingida por um raio. As fibras da copa rompendo o tronco lenhoso. O estalar das folhas rasgando o tempo. O inimaginável acontece. Dentre tantas ruas, tantos outras inúmeras árvores na metrópole… O corpo a pender. Queda. -Bruna, tu não vai acreditar. – Fabrício, sai da janela. – É a vizinha? – Não dá pra começar uma amizade batendo panela… – Vou lá pegar uma também. As semanas e as panelas foram sendo consumidas pelo medo, pela ânsia. Lentamente. O fel desidratou proteínas, expôs a gordura. O excesso de convivência sem planos. A surpresa de receber o que sempre quis: tempo. Março foi o mês em que um teve esse capital de sobra, outros nada puderam. Uns, sintomas leves. Outros, saíram de casa sem abrir porta alguma. – Bate palmas também, Fabrício. Pelos enfermeiros. – Bati ontem… Para os garis. Bater palmas é uma dos poucos movimentos que ainda se pode controlar. Onde colocar as próprias mãos se tornou vigília. Os abraços saíram do ar. Os beijos, censurados pela secretaria. – Vai se lavar. – Tu enfia a mão dentro das calças também, Bruna. Qual é? Tem quinze dias que eu to te manjando. – Vamos dormir. – Mas a gente acabou de acordar. – Então vamos comer. – Aí, sim. No mundo sem controle, assumir o poder… pode não funcionar. Afirmar é a tragédia. – É melhor cooperarmos. Isso aqui pode demorar ainda mais. – Você ainda gosta de mim? – Sem maquiagem, unha feita e chapinha… talvez. Do lado de fora, as folhas secaram no corpo imóvel. A natureza recupera-se fortuitamente. Apesar daquela perda irreparável agonizando na calçada.
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MARCO. 31.03.2020
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