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117. PROMESSA QUEBRADA. 26.04.2020 117

Na nossa rua as casas não têm muro. Algumas até tem, mas são bem baixinhos. É bom pra gente se sentar e ficar de papo. Foi assim que conheci Angélica. Parecia mesmo um anjo, cabelos loirinhos e uma pele bem cheirosa. Minha vó dizia que eu não estava na idade. Com todo respeito à minha finada vózinha, isso que decidia era eu; na verdade, nem era eu, era meu coração que pulava. Toda vez que ela passava entregando os cremes caseiros, eu quase caía para trás.  – Boa tarde, Angélica. Quer ajuda? – Eu posso carregar, hoje só volto para casa depois de vender tudo.  – Vou te ajudar de outra forma então. Você espera eu pedir dinheiro pro meu pai? …  Queria comprar todos para ela não sair. Comprei um pote só para ficar sentindo o cheiro de rosas que ela deixava para trás. Uma delícia mesmo. Na alameda onde morávamos, todos se tratavam como família, devia ser a falta de muro, mas flores tinha de todo jeito. Um sabia da vida do outro sem cerimônias, por isso fiquei sabendo no mesmo dia. Angélica havia desaparecido.  – Eu falei que ela era muito novinha para sair por aí.  – Mas ela só entregava na nossa rua, meu amor. Vamos esperar o delegado ligar.  Ela só entregava na nossa rua, isso era verdade, mas a nossa rua era enorme. E um vizinho ia atualizando as notícias para o seguinte. Na última casa já se falava de abdução alienígena. Mas eu sabia que ela voltaria um dia. Por isso esperei.  – Alexandre, vai dormir.  – To escrevendo no meu diário, mais dez minutos…  Eu escrevia todos os dias uma carta, caso ela retornasse. Foi preciso que eu reservasse uma gaveta, pois ela nunca retornava. Até que um dia, o cheirinho de rosas voltou.  – Viriato, corre aqui, nossa filha!  – Minha filha, já faz dez anos. Por onde você andou, meu amor.  Foi uma comoção danada. Dona Fátima – foi no muro dela que conheci Angélica – disse que tinha sido a santa. Eu sabia que ela voltaria. Demorou bastante, já estou rapaz, e acho que essa será a última carta que escrevo. Estou namorando a filha da Dona Fátima.  – Você está idêntica àquele dia, Angélica. Tão bonita quanto. – Eu disse que meus cremes eram ótimos.  – E por que demorou tanto? – Eu disse que só voltaria quando vendesse todos.  – Agora tenho dinheiro, posso comprar mais. Eu te amo.  – O que disse? – Eu te pago.