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116. MELHOR DE TRES. 25.04.2020 116

A programação na tevê mostrava um rapaz sendo eliminado de um reality.  – De um confinamento para o outro, coitado. Já escovaram os dentes?  – Já, mainha. Quem toma um baralhinho? – Oba!  Claudia, que havia perdido o marido para o bar, deu a sorte de todos os três filhos gostarem de cartas. Era o entretenimento mais barato. Na casa não havia videogames. O único celular, foi entregue para atender às emergências da patroa idosa.  – João e Paulinho eu até aceito, mas você, Mariana… é muito feio menina viciada em carteado. Vê seu pai, com aquelas vagabunda do clube. Ele só volta pra casa depois de cumprir quarentena no barraco de uma delas.  – Mãe, deixa eu fazer dupla com Mariana, só hoje.  – Mariana joga comigo, aqui em casa é menino contra menina.  Buscaram na laje mesa dobrável de metal e se apertaram na cozinha, e sala, e cozinha. O único cômodo da casa, afora o banheiro, se transformara num cassino com a gritaria típica. A exceção eram os copos de café sem açúcar e biscoito de maisena. A mão de dona Claudia estava cheia, seria uma excelente jogada. Mas uma porta arrombada é motivo suficiente para que se interrompa um jogo sério, valendo a limpeza das vasilhas sujas. A fuga deu-se pela janela do banheiro.  – Graças ao meu bom Deus que aquele homem não faz nada em casa. Se ele tivesse colocado os vidro que eu pedi, eu não passava. Corre pra praia todo mundo.  O céu os recebeu com a mesma agressividade, não perceberam a chegada da tempestade. – Mãe tô com frio.  A mulher se deu conta de que a filha havia saído de casa só de camisola fina.  – Olha, Paulinho. Tá quase nascendo o peitinho.  – Mãe…  – Jesus Cristo, acode aqui João. Teu irmão cortou o braço.  Agora eram dois filhos com frio. João entregou a camisa para estancar o sangue. O pé-d’água chegou com força. O vento unia ainda mais a família desabrigada. O irmão, descamisado, tremia. – Volta aqui Paulinho.  – Vou lavar a camisa, João tá com frio, mainha, peraí.  – Jãozin, vai buscar teu irmão. Traz ele logo… – Deixa que eu vou mãe.  – De jeito nenhum, menina fica com a mãe.  Os dois irmãos voltaram rindo e chutando areia molhada. Deram o abraço fraterno, o mesmo de quando chegavam juntos da escola. O último. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas foi preciso apenas um relâmpago para levar dois filhos de Claudia, e livrá-los do desespero que seria voltar para casa naquela noite azarada.  Melhor de três