A programação na tevê mostrava um rapaz sendo eliminado de um reality. – De um confinamento para o outro, coitado. Já escovaram os dentes? – Já, mainha. Quem toma um baralhinho? – Oba! Claudia, que havia perdido o marido para o bar, deu a sorte de todos os três filhos gostarem de cartas. Era o entretenimento mais barato. Na casa não havia videogames. O único celular, foi entregue para atender às emergências da patroa idosa. – João e Paulinho eu até aceito, mas você, Mariana… é muito feio menina viciada em carteado. Vê seu pai, com aquelas vagabunda do clube. Ele só volta pra casa depois de cumprir quarentena no barraco de uma delas. – Mãe, deixa eu fazer dupla com Mariana, só hoje. – Mariana joga comigo, aqui em casa é menino contra menina. Buscaram na laje mesa dobrável de metal e se apertaram na cozinha, e sala, e cozinha. O único cômodo da casa, afora o banheiro, se transformara num cassino com a gritaria típica. A exceção eram os copos de café sem açúcar e biscoito de maisena. A mão de dona Claudia estava cheia, seria uma excelente jogada. Mas uma porta arrombada é motivo suficiente para que se interrompa um jogo sério, valendo a limpeza das vasilhas sujas. A fuga deu-se pela janela do banheiro. – Graças ao meu bom Deus que aquele homem não faz nada em casa. Se ele tivesse colocado os vidro que eu pedi, eu não passava. Corre pra praia todo mundo. O céu os recebeu com a mesma agressividade, não perceberam a chegada da tempestade. – Mãe tô com frio. A mulher se deu conta de que a filha havia saído de casa só de camisola fina. – Olha, Paulinho. Tá quase nascendo o peitinho. – Mãe… – Jesus Cristo, acode aqui João. Teu irmão cortou o braço. Agora eram dois filhos com frio. João entregou a camisa para estancar o sangue. O pé-d’água chegou com força. O vento unia ainda mais a família desabrigada. O irmão, descamisado, tremia. – Volta aqui Paulinho. – Vou lavar a camisa, João tá com frio, mainha, peraí. – Jãozin, vai buscar teu irmão. Traz ele logo… – Deixa que eu vou mãe. – De jeito nenhum, menina fica com a mãe. Os dois irmãos voltaram rindo e chutando areia molhada. Deram o abraço fraterno, o mesmo de quando chegavam juntos da escola. O último. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas foi preciso apenas um relâmpago para levar dois filhos de Claudia, e livrá-los do desespero que seria voltar para casa naquela noite azarada. Melhor de três
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MELHOR DE TRES. 25.04.2020
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