Eu não gosto de sair de casa, não por motivos evitáveis, mas eu fui à feira mesmo podendo pedir pelo zap. Penso que é necessário fazer exercício moderado. Costumo andar pela casa arrumando o que fazer quando estou livre. Entre a cozinha e o quarto, ouvi uma das tevês dizer sobre trombose, covid e que seria necessário exercício regular, moderado, mas diário. Vou à feira com frequência, mas esse primeiro dia é que é o caso. Cumpri a lista de tarefas no “modo feira-livre/possível aglomeração”; álcool, máscara – a maior, cobre barba e laterais do rosto -, escudo facial (me recuso a dizer “feice xildi”) e lista impressa, em papel, para depois descartar por lá mesmo. Depois de meia dúzia de crises de ansiedade, vergonha de sair de casa fantasiado de caça-fantasma e tentar não tropeçar com a falta de prática, avistei a rua dos produtores locais. Na televisão é mais bonito, o repórter escolhe o bairro mais chique e dá-lhe matéria de conscientização. Na feira da minha casa, parecia que eles ainda disputavam as frutas e legumes com os bichos na selva. Todo mundo sem máscara, mostrando aquela quantidade enorme de dentes, a moça cantando ao vivo cuspindo no mamão do seu Rodrigo, uma desgraça caótica. Para encerrar, o pior (depois de tudo isso), uma senhora apareceu, muito bem vestida, cabelos loiros, magra, anéis, brincos, tudo que a colocava no topo da nossa pirâmide brasileira. Eu estava na primeira barraca. Ali já tinha tudo o que eu precisava, inclusive, bananas… encolhi a lista para 1/4 para me pirulitar dali imediatamente. Esta senhora me chega como se a própria dona da banca estivesse lá, e não o rapaz que sofria para higienizar as mãos e cortar mandioca. Achei muito estranho porque ninguém entra na barraca pelo lado de dentro, é a primeira regra do comércio. Ela entrou, escolheu uma banana como se nada fosse. Com a violência de quem arranca uma criança dos braços da mãe, descascou a fruta roliça e comeu apenas metade. A velocidade com que realizou o fato me fez duvidar da minha sanidade, libido e moral. Jogou o resto no chão! Eu abaixei o escudo dois milímetros, franzi a testa e escolhi um palavrão e pensei nele. Ela deu a volta, levantou novamente a máscara (pelo menos isso) e saiu plena, satisfeita. Agora, realiza a trajetória da banana; o camponês planta inúmeras bananeiras, se concentra nas pragas, na colheita, pensa na distribuição ou vai ele mesmo vender e, na primeira oportunidade, uma velha come sem pagar e ainda desperdiça. Eu pergunto: pode isso? Aqui na feira de Jardim da Penha pode, sim. Eu pago porque eu tenho coração mole. Duro foi assistir ao crime com medo de um vírus. Vai saber se canalhice pega pelo ar. Álcool nela!
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PODE. 05.12.2020
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