As construções, fora de moda, imploravam para que entrassem e vissem sua beleza interior. Tem coisa boa aqui, venham, podiam falar se fossem admirados. Dos arbustos, Geraldo lamentava o recolhimento do carrinho de pipoca. O moço não tem licença, dizia para um amigo que descia animado. Já é o sexto esse ano. E riram juntos. Correram para o outro lado da praça, onde o churro ainda estava autorizado a jogar migalhas. No quadrado em que viviam, entre o chafariz e o coreto, ladeado por antigas edificações com placas coloridas, da grama, imaginava: que sonho o dia em que eu puder entrar, assim como as pessoas fazem, mas penso que é porque sou sujo. Entram, saem e depois compram pipoca ou doces, e sempre sobra para ele e seus amigos. Olhar para quem esteve lá dentro já trazia alento. Moravam ali mesmo, em frente a tanta agitação e beleza. Os ornamentos eram tudo o que eles tinham, que mesmo com a praça vazia, mesmo sem gente como companhia, mesmo na chuva, os prédios estavam lá como se fosse o colega ao lado. Geraldo e seus amigos esperavam para ter o que comer, para fazer graça, vir e ver. Já apanharam, já correram da polícia, das crianças, de outros maiores que eles. O território era bem disputado. Umas velhas salvavam o dia, mas vinham cada vez menos. Deixa de ser bobo, Geraldo, você nunca ia passar da recepção, o amigo dizia enquanto saboreava o saco cheio de doces de alguma criança estabanada. Geraldo se aproximava dos prédios, os carros buzinavam, tudo era grande, alto, barulhento, mas tentava, imaginava e dormia para tentar outra vez. Ninguém sabia que alguém como ele tinha vontades. Ali, naquela praça, a expectativa não passava dos cinco anos, a média mesmo era uns três, com muita sorte, mas Geraldo, coitado… não teve tanta facilidade. Nasceu com uma perna que caiu de ferida. Ficou famoso por mancar na praça, enquanto outros passavam camuflados. Destacar-se era prejuízo. Voar, nunca aprendeu. Mas pulava gracioso, tinha amigos, porque ganhava mais comida. Quando teve coragem, foi. Na falta de prumo para levantar voo, o Geraldo que sonhava em visitar o interior de qualquer um dos imensos prédios ornamentados, morreu. As tripas se confundiam com a sujeira da praça. Quem podia até olhava, mas raramente nos prédios entrava. Esses humanos se soubessem que aquele Geraldo tinha um sonho, talvez… não. Vida de quem vive na praça não é fácil.
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POBRE GERALDO. 16.01.2020
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