Lá da curva da autoestrada, antes do posto de gasolina, tudo o que a vista tocava pertencia à família Andrada. A padaria também, a loja de roupa de moças. O tem tudo e até o cemitério, que foi construído no terreno do tataravô – que começou a peleja da família que guardava tudo e acumulava. Menos Berê, o menino nada guardava. Era ruim da cabeça, doente da memória. A família por uma crise atravessava. Depois de Berê, nenhum menino chegava. Os casórios arranjados não aumentavam a família, ia minguando. Já era mal falada nas ruas e as finanças iam tornando-se pior, sem gente para administrar tamanho empreendimento. Um dia punham o menino na frente da padaria, noutro em frente à lojinha e, se alguém perguntasse, ele só apontava com o dedo na direção da lotérica. Sua voz, nunca ouviram. Esse menino precisa visitar seu dotô. Ave Maria essa família tá condenada. E o menino Berê nem desconfiava de sua missão de reerguer o império Andrada. Um dia, passou na frente do cemitério, uma moça com roupa de seda. De sorriso fechado e manto, convidou o menino para um passeio na capela. Ele, que já não falava, não foi visto em canto nenhum da cidade. A lojinha fechou, a padaria mudou, gente nova da cidade arrendou; a moda agora era cappuccino. E o cemitério virou estacionamento da nova igreja promovida a basílica. A cidade passou a receber fiéis de todo canto, que uma vez por ano faziam romaria, vinham rezar pelo menino Bernardo das Andradas. E o pobre do Berê, menino santo, sem querer, levou prosperidade para a cidade. E a família, mesmo pequena, não perdeu a mania de somar rancor. O Imaculado Bernardo Andrada, foi brincando de esquecer de tudo, das dores, de pai de mãe e até da mágoa. Seu nome, se perguntassem, ele diria: meu nome é nada.
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DOENCA DE GUARDAR. 15.01.2020
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