Nunca mais andei sobre o meio-fio, receio de machucar o tornozelo e não ter dinheiro para a consulta. Cresci e fiquei cheio de ressalvas. A visão amplia e ganham luz aspectos que só interessam quem já tem barba ou peito. Criança vê tudo com curiosidade, e a curiosidade é destemida. Coloquei um pé, olhei se vinha alguém, abri os braços para me equilibrar. Precisava tentar, era a rua da minha casa, conhecia melhor que meu próprio apartamento. Aumentei a dificuldade, fechei os olhos, como quando era bem pequeno e o chão não parecia tão distante dos meus dentes. Logo após cruzar a esquina, tropecei e caí. A pele era verde, mas um verde de mofado, escura, o bicho não se mexeu. O gel que recobria as escamas agora serviam de babosa para meu cabelo. Nojento! Ele ouviu meu lamento e se arrepiou. A enorme espinha dorsal me derrubou no chão, de novo. Patinei na meleca e consegui me encostar no muro para admirar o absurdo. Estaria eu no período triássico? Como viajei 250 milhões de anos com apenas uma pancada? Biólogo tem cada viagem. Fechei os olhos, balancei os braços que nem o Bruce Lee fazia antes de começar a bater, nada. O Amazonsaurus Maranhensis continuava a me encarar. 10 metros de comprimento, uns três de altura, vai. Era este o tamanho do meu susto. Talvez ele me engolisse numa bocada só, mas eu não podia arriscar, precisava levar os ovos e o leite para o jantar, ou era dormir no sofá outra vez. Peguei o celular para tirar uma foto, não encontrei, não tinha bolsos. Completamente nu. Procurei pelo calçamento e nada. Prédios, sumiram. Nada que indicasse qualquer sinal de hominídeos ali no local, o que chamou a atenção de outras espécies de gigantes. Corri! Minhas costas arderam com a pinçada do pterodáctilo esperto, que voando, obteve vantagem em me capturar. O ninho era enorme, fedia à morrinha dos filhotes que iam, um a um, trincando a casca dos ovos. O barulho era ameaçador. Aguardei o momento certo e entrei numa concha de ovo e fechei com outra peça solta por ali. Penso ter adormecido com a amônia. A luz foi entrando e me acordando. O filhote zarolho destampou meu esconderijo e perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim. Por que não estaria? Me perguntou também se era no crédito ou no débito. Eu disse que não pagaria pelo leite. Os filhotes se olharam petrificados com minha recusa. Deslizei pelado ribanceira abaixo, corri livre pelo pântano e subi na primeira árvore que encontrei. Enorme, a circunferência de um jequitibá, subi e aguardei uns 240 milhões de anos.
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PETRIFICADO. 07.12.2020
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